Pular para o conteúdo principal

Amar

Estava conversando com uma amiga, via Messenger, e se não fosse a distância, minimizada pelas facilidades que o mundo virtual oferece, certamente veria em seus olhos um brilho diferente. Ah, a paixão... Me encanta esse estado em que as pessoas parecem flutuar, e flutuam mesmo. Os dias se tornam mais bonitos, as cores ficam mais intensas e a alegria contagia. Me contagiei e lembrei Drummond... Então, para você, minha amiga Roberta; para os que estão, como o querido Mauricio, começando novas histórias; e para meus amigos que, sozinhos ou não, são, por essência, apaixonados, apaixonáveis e apaixonantes: Amar.


Amar

"Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita."

Carlos Drummond de Andrade

Comentários