Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Janeiro, 2005

Paixão

Naquele momento eu não saberia dizer se estava acordada ou no meio de um sonho. Poderia também se revelar, em algum momento, um pesadelo. Flutuava sobre a realidade sem me dar conta da rotina, do cotidiano e de todas as ações e obrigações relacionadas à normalidade morna de cada dia. A pergunta que soava mais forte em minha cabeça era se estava acordada ou dormindo. Sedada também poderia ser uma possibilidade e, nesse caso, nem sonhos nem pesadelos e sim delírios. O universo paralelo em que eu me encontrava não era ruim. Era, ao contrário, muito bom. Estava me proporcionando tranqüilidade e conforto. Apesar de arrepios seguidos por ondas de calor intensas eu me sentia bem. Intensa e ineditamente bem. Por isso tive medo. Medo de voar cada vez mais alto e não mais voltar. Medo de cair abruptamente e me machucar. Tive medo mas não parei. Continuei me deixando levar, mergulhei de olhos fechados nessa realidade irreal e cheguei ao diagnóstico: paixão.

Babel de poemas

Poemas em sessentas línguas diferentes traduzidos para o português. Assim é Babel de poemas – uma antologia multilíngüe, de Carlos Freire. Diversidade linguística e humana que faz com que a divergências culturais convergirem para um denominador comum: a arte. De língua familiares a nós, como espanhol, inglês e frânces, passando pelas línguas orientais e seus ideogramas, até chegar ao desconhecido aimara, idioma pré-colombiano falado por dois milhões de pessoas na Bolívia e no Peru, o livro proporciona uma viagem pelo universo da poesia.
Trabalho que só poderia ser feito por alguém como Carlos Freire, considerado pelo Centro Biográfico Internacional de Cambridge um dos dois mil eruditos mais notáveis do século 21. Em setenta anos de vida ele estudou sistematicamente mais de cem línguas. “O meu interese pelo estudo das línguas estrangeiras surgiu cedo, quando ainda era estudante ginasiano, ao dar-me conta de que ler os clássicos estrangeiros em traduções representava uma enorme desvanta…

Não digais...

"Não digais que, esgotado seu tesouro,
de assuntos falta, emudeceu a lira;
poderá não haver poetas, mas sempre haverá poesia!

Enquanto as ondas, da luz ao beijo,
palpitarem acendidas;
enquanto o sol as desgarradas nuvens
de fogo e ouro vestir;
enquanto o ar no regaço levar
perfumes e harmonias;
enquanto houver no mundo primavera,
haverá poesia!

Enquanto a ciência a descobrir não alcançar
as fontes da vida,
e no mar, e no céu houver um abismo
que o cálculo resista,
enquanto a humanidade, sempre avançando
não souber onde caminha,
enquanto houver um mistério para o homem,
haverá poesia!

Enquanto sentirmos que se alegra a alma,
sem que os lábios riam;
enquanto se chorar sem que o pranto venha anuviar a pupila;
enquanto o coração e a cabeça
batalhando prosseguirem;
enquanto houver esperanças e recordações,
haverá poesia!

Enquanto houver os olhos que reflitam
os olhos que fitam,
enquanto responder o lábio suspirando
ao lábio que suspira;
enquanto sentirem-se possam num beijo
duas almas…

Saudade

A saudade veio me visitar. Chegou meio de surpresa e com cara de quem pretende ficar um bom tempo. Misteriosa ela... Eu nunca soube ao certo onde mora, mas desconfio que não seja longe. Tenho cá pra mim, que habita o céus, mas precisamente as nuvens. Fica de espreita me observando e, de repente, não mais que de repente, surge. Os motivos que costumam traze-la eu ainda não descobri, mas desconfio que ela prefira aparecer em dias chuvosos. Talvez pela carona fácil que pega nos pingos d’água, talvez porque sinta a atmosfera nostálgica e melancólica dos dias de chuva.

Lembrar

Grande verdade essa de que uma coisa leva a outra. Pense na letra A. O pensamento seguinte será, muito provavelmente, B, ou então E, I, O, U. E o que dizer do X, Y, Z? Seqüência óbvia e lógica, não é? Se com as letras é assim, imagine com a palavras. Flor lembra jardim, que lembra praça, que lembra balanço, que lembra infância, que lembra passado. Já o passado, ah... esse lembra tanta coisa... Das lembranças para os sentimentos, se chega a saudade. Saudade do pai que já morreu, do amigo que caiu no mundo, do amor que não foi para sempre. E, falando em sempre: futuro. E esse aí, vem puxando as possibilidades, a esperança e o sonho. Sonhos. Embora nem sempre consigamos lembrar bem deles pela manhã, eles nos lembram que precisamos sonhar, dormindo e, principalmente, acordados. Dormir, acordar, comer, amar e... Viver. E estar vivo lembra o que? Que teremos sempre o que sentir, sonhar, viver e, claro, lembrar. E, já que o assunto é lembrar, o que mesmo lembra a letra A? Ora, é o artigo def…

Até o fim

Estou muito cansada. Sinto o pouco de vida que me resta se esvaindo. Me vem à cabeça a sensação de um punhado de areia escapulindo lentamente por entre os dedos. A vida já não me pertence, mas não tenho a coragem, ou covardia, de me separar dela. Seguro no fino fio que ainda nos une e parece que a minha força, apesar de fraca, está precipitando o rompimento dele. Não rompa! Não! Não agora que tantas coisas por fazer ainda me chamam. Não respondo. Elas gritam por mim e meu corpo não responde. Ele só me pergunta, a cada entardecer: será que não veremos o dia de amanhã nascer? O amanhã. Tinha tantos planos para ele... Projetos abortados por um corpo estranho e maligno que, contra minha vontade, ganha espaços preciosos dentro de mim. Ele está vencendo e eu me pergunto o que fazer enquanto a guerra não acaba. Rendição nunca! Embora as condições sejam cada vez mais adversas, faço o que posso e entre esse que posso está escrever. Escrevo para passar o tempo, para driblar o medo, para não me …

Desejos

Frente a frente com ele naquela mesa de bar a primeira coisa que percebi foi a intensidade e a profundidade do olhar. Os olhos me chamaram e eu fui. O que acontecia a minha volta perdeu importância e passei a observar com um interesse surpreendente aquela pessoa. A pele clara parecia macia e cheirosa, as mãos eram expressivas, e o tom de voz envolvente me envolveu. Seus olhos já me olhavam, mas eu queria mais. Quis sentir o calor daquela pele em contato com a minha, quis que aquelas mãos que deslizavam suavemente pelo copo acariciassem todo o meu corpo, quis aquela voz sussurrando a meu ouvido e aquela boca me beijando com intensidade. Ali, naquela noite de sábado, quis que aquele homem fosse meu. E ele foi.

Ausência

Tentei o novo, o inédito, o desconhecido.
Tentei também o velho e o conhecido,
o passado anterior ao seu.
Vivi e revivi histórias,
apostei, arrisquei, experimentei.
Beijei outras bocas,
abracei outros corpos,
tive prazer com outras pessoas,
mas não esqueci você.
Você...
Comparação inevitável,
pessoa insubstituível,
saudade insuperável.
Você...
Ausência presente
em todas as camas onde deitei.

Um janeiro que passou

Há exatamente um ano ela ouviu a seguinte pergunta:
- Você lembra o que estava fazendo nesse dia ano passado?
Ela até tentou lembrar mas o que era, naquele momento, presente, era de tal forma especial, que passado e futuro pareciam coisas distantes, idéias perdidas e sem nenhuma importância. A vontade era que aquele presente se repetisse indefinidamente e que tudo que sentia naquele dia se prolongasse para sempre.
Aquele janeiro passou, mas agora se alguém lhe perguntasse sobre um ano atrás, ela saberia, não só dizer o que estava fazendo, mas conseguiria descrever sentimentos e sensações que resistiram a conturbados doze meses. Poderia, inclusive, dizer como seria o futuro que, naquele dia de um janeiro que já passou, achava possível ter. Talvez fosse mesmo possível. Talvez. Mas na realidade não foi.
Isso tudo lhe veio à cabeça logo pela manhã e deixou-a melancólica e nostálgica. Não resistiu a olhar as fotos daquele dia que completava um ano. Viu em imagens o que ainda estava muit…

O amor

“Mas o amor, essa palavra... Moralista Horacio, temeroso de paixão sem uma razão de águas fundas, desconcertado e arisco na cidade onde o amor se chama com todos os nomes de todas as ruas, de todas as casas, de todos os andares, de todos os quartos, de todas as camas, de todos os sonhos, de todos os esquecimentos ou recordações. Amor meu, não te amo nem por ti nem por mim nem pelos dois juntos, não te amo porque o sangue me faça te amar, amo-te porque tu não és minha, porque tu estás do outro lado, desse lado para onde me convidas a saltar e não posso dar o salto, porque no mais profundo de tudo tu não estás em mim, e não te alcanço, não consigo passar para lá do teu corpo, do teu riso, há horas em que me atormento por saber que tu me amas (como gostas de usar o verbo amar, com que pretensão vais deixando cair o verbo amar sobre os pratos, os lençóis e os ônibus), atormento-me com o teu amor que não me serve de ponte, pois uma ponte não se apóia de um só lado Wright ou Le Corbusier ja…

Ctrl + alt + del

Salvei você. Salvei fotos suas no meu computador, salvei seus e-mails, salvei as cartas que escrevi para você, salvei as mensagens que não cheguei a enviar. Guardei você neste universo virtual que nos dá a ilusão de que o passado não passou. No máximo, foi até a esquina e volta logo. Será que o universo virtual foi contaminado por um vírus? Ou será que essa esquina fica em alguma cidade no interior da China? Você não voltou.
Este programa executou uma operação ilegal e será fechado. Fechou, mas eu tento reabri-lo a todo momento. Algumas vezes até consigo, mas só por instantes. Sei que deveria deletar, tudo e de vez. Mas... Mas a vida não é um programa de computador. Ctrl + alt + del não funciona para fechar as lembranças e reiniciar. Posso limpar o meu computador, mas o que preciso mesmo é encontrar o atalho que leve meu coração para longe de você.

Idas e vindas

Sábado à tarde, saindo da praia, fui surpreendida por uma ligação no celular. Alguém que não via há muito tempo chegou de viagem e, por algum motivo, lembrou de mim. É sempre bom ser lembrada, mas é melhor ainda quando a lembrança não é uma lembrança óbvia, previsível ou obrigatória. Não tinha que lembrar, mas lembrou. Lembrou porque... Lembrou e isso basta. E bastou para me deixar feliz. Para me mostrar que quando as pessoas passam, tranqüilamente, da sala do presente para o quarto do passado, a porta se mantém aberta. E, nas muitas idas e vindas que movimentam a vida, é através desta porta que as histórias podem ser lembradas, revividas e, talvez, recriadas e reinventadas.
Um amigo diz que às vezes damos uma volta de 360°. Segundo ele, andamos, andamos e paramos no mesmo lugar. Será? Acho que não. A cada passo mudamos nós, mudam os outros, mudam os lugares, mudam as situações. Voltar ao ponto de partida não é possível porque ele também já não é mais o mesmo. Pode ser, agora, um pont…

Em movimento

Novidades? A vida segue, lenta e previsível. O novo tem se mostrado de forma tão tímida, que não tem merecido ser chamado de novidade. Acontecimentos que simplesmente acontecem, sem muita graça, nenhum brilho e grau de empolgação zero. Pode isso ser chamado de novidade? Prefiro deixar o título de A Novidade; com faixa, troféu e tudo; para aquele inédito que fará, como que por magia, sentimentos, sensações e sentidos esquecerem o passado, se entregarem ao presente e apostarem no futuro. Enquanto isso, a vida segue, lenta e previsível. Pelo menos há o movimento e, não estando parado, tudo é possível.

Efeitos de uma manhã chuvosa

Uma chuva fina cai na cidade e minha vontade é ficar na cama e, entre travesseiros e um edredon macio, ler aquele livro de contos interessantíssimos, ouvir minhas músicas preferidas e me deixar ficar, esperando o tempo passar devagar. O tempo passa, não na velocidade que gostaria, e, de forma acelerada, o mundo real me chama. É preciso ir porque, embora não haja muito trabalho a ser feito, existe um horário implacável a ser cumprido. Às 10h da manhã é fácil perceber que a preguiça, efeito direto de um dia chuvoso, traz efeitos para todos e, o que é pior, tudo. A internet não funciona e quase naturalmente vem o pensamento: será que uma mensagem importantíssima espera na caixa de correspondência eletrônica? Será que está para chegar, por e-mail, a notícia capaz de me tirar dessa inércia?

O dia do sim

Já havia passado por aqueles lugares muitas vezes e, embora fingisse não perceber, cada um deles lembrava ela. A praia que costumavam ir, a rua em que sempre passavam juntos, a lanchonete onde tomavam café da manhã, a livraria das tardes de sábado... Com ela havia descoberto a cidade e, graças a ela, tinha agora a sensação de ter nascido e vivido ali todos os seus 30 anos.
Mas naquele dia o trajeto tinha um significado especial. Um passeio pela memória, uma viagem ao tempo onde, a cada esquina, surgiam lembranças e saudade de uma história que teria, naquele dia, seu desfecho. Como ela estaria se sentindo? Será que estaria repetindo, como todas as noivas, que aquele era o dia mais feliz de sua vida?
Seguiu para a igreja e de longe já viu a movimentação que a chegada dos convidados estava causando na rua. O suor foi o primeiro sinal de nervosismo, em seguida as mãos começaram a tremer e logo a boca estava seca. Mas agora não tinha mais jeito. Alguns conhecidos já o tinham visto e se apr…

Anjo

Sentei na areia para observar o mar. Me entreguei ao ir e vir das ondas e não percebi quando aquela criança se aproximou, colocou suas mãozinhas sobre meu ombro esquerdo e falou, com uma voz suave, serena e segura:
-Chegou o seu momento...
Fechei os olhos e subitamente o tom de voz se modificou:
-Vai! A felicidade lhe espera!
Voltei a abrir os olhos e, ao invés da criança, vi um velhinho. Com um olhar doce ele acariciou meu rosto e sumiu. Olhei de novo para o mar e compreendi. Um anjo havia falado a meu ouvido... Inspirei com coragem e sorri o sorriso dos esperançosos.

Pessoas que ficam

E interessante como as pessoas surgem, às vezes passam e, em outros casos, ficam em nossas vidas. Que mecanismo mágico é este que faz com que algumas permaneçam, se não fisicamente próximas, muito vivas na memória? Encontros não acontecem por acaso. O que dizer então da lembrança de gente que convivemos pouco, pessoas que, apesar de terem seguido pelas estradas tortuosas da vida, fixaram residência nas ruas de nossas memórias? Não parece ser obra do despretensioso acaso... De quem então? Ah, esse é uma pergunta que não carece de respostas. Sem explicações nem entendimentos. Nada de teorias! Vale mais curtir as lembranças e alimentar nossa louca e sábia memória. Como a vida, uma maravilhosa loucura!

Nas ondas do mar

Iemanjá mandou me chamar. Coloquei então uma roupa branca e fui em direção à praia para atender ao chamado da rainha do mar. Com a barra do vestido levantada, os pés na água salgada, flores, fé e esperança, prestei minha homenagem.
Nas flores brancas, o desejo de paz e serenidade para seguir meus caminhos. Nas amarelas, a representação da força, da energia e da luz do sol que quero trazer para minha vida. As rosas, para abrir caminho para o amor. Amar e se amada. Sempre. Já as vermelhas, cor da paixão, para trazer a intensidade, o envolvimento e a entrega.
As ondas levaram cada uma delas lentamente. Junto, foram lembranças e expectativas, passado e futuro. E, cíclico como é, o mar me trará de volta, além da surpresa, do novo e do desconhecido, a renovação, o que ainda não pereceu. No balanço das ondas, os frutos das sementes que plantei.