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Não digais...

"Não digais que, esgotado seu tesouro,
de assuntos falta, emudeceu a lira;
poderá não haver poetas, mas sempre haverá poesia!

Enquanto as ondas, da luz ao beijo,
palpitarem acendidas;
enquanto o sol as desgarradas nuvens
de fogo e ouro vestir;
enquanto o ar no regaço levar
perfumes e harmonias;
enquanto houver no mundo primavera,
haverá poesia!

Enquanto a ciência a descobrir não alcançar
as fontes da vida,
e no mar, e no céu houver um abismo
que o cálculo resista,
enquanto a humanidade, sempre avançando
não souber onde caminha,
enquanto houver um mistério para o homem,
haverá poesia!

Enquanto sentirmos que se alegra a alma,
sem que os lábios riam;
enquanto se chorar sem que o pranto venha anuviar a pupila;
enquanto o coração e a cabeça
batalhando prosseguirem;
enquanto houver esperanças e recordações,
haverá poesia!

Enquanto houver os olhos que reflitam
os olhos que fitam,
enquanto responder o lábio suspirando
ao lábio que suspira;
enquanto sentirem-se possam num beijo
duas almas confundidas;
enquanto existir uma mulher formosa,
haverá poesia!"

(Gustavo Adolfo Bécquer)

Comentários

Anônimo disse…
Amiga Roberta,
Que belo poema esse que vc selecionou, tão bom pra quem, como nós, precisamos tanto de respirar quanto desenhar em palavras coisas tão confusas da alma. Aliás, parabéns pelo corretíssimo texto jornalístico antes deste poema.

beijos
Mauro Cassane