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Mostrando postagens de Fevereiro, 2005

O detestável mundo da mecânica

Se há um momento em que eu pergunto, com ar de reclamação - quem inventou essa história de igualdade entre os sexos? – é quando tenho problemas, grande os pequenos, com meu carro. Ter que ir à oficina me desagrada tanto que sou capaz de dizer coisas do tipo: vou estragar minha unha, mesmo sabendo que elas estão sempre curtas e quase que constantemente sem esmalte. São momentos em que eu penso que certas coisas, definitivamente, não são coisas para mulheres.
É bem verdade que a ida ao mecânico já foi bem mais desagradável. O que eram aqueles calendários que, não por acaso, ficaram conhecidos como calendários de borracharia? Eles estão agora escassos e essa mudança mereceu até matéria no jornal. Parece que a presença, cada vez mais freqüente, de clientes mulheres obrigou as oficinas a mudarem. Ambientes mais limpos e mecânicos mais acostumados com a presença feminina tornam a ida à oficina menos desagradável, mas a sensação de poder ser enrolada continua, pelo menos para mim. Mesmo que e…
"O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro,
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível.
O que podia ter sido é uma abstração
Permanecendo possibilidade perpétua
Apenas num mundo de especulação.
O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.
Ecoam passos na memória
Ao longo do corredor que não seguimos
Em direção à porta que nunca abrimos
Para o roseiral. As minhas palavras ecoam
Assim, no teu espírito.
Mas para quê
Perturbar a poeira numa taça de folhas de rosa"

(T. S. Elliot)

Ausência

"Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto, e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surja em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás
A tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te p…

Futuro presente

Ansiedade, frio na barriga, sono agitado e horas que parecem nunca passar. Assim têm sido meus dias. Dias de espera. Mas afinal, o que eu espero? Um algo vago, perdido no tempo que não foi porque ainda não é. Não sei o que espero, mas espero. Ou talvez, ao invés de esperar, esteja eu sendo esperada. Nesse caso, seriam os meus dias, dias de sentimentos antecipados. Pressentimento. Dias marcados por uma percepção clara, embora pouco compreendida, do que está por vir. Intuição. Será então que um acontecimento importante me aguarda logo ali na curva do dia de amanhã? Um amanhã que hoje, para mim, parece o dia de uma grande viagem, de um reencontro muito esperado, de uma conquista importante, de um crepúsculo matutino esplendoroso após longos dias de tempestade. Será? O que será que será? Espero (afinal, eu espero mesmo) que seja o pretérito imperfeito transformado em um futuro presente mais que feliz.

Instante

“Uma semente engravidara a tarde.
Era o dia nascendo, em vez da noite.
Perdia amor seu hálito covarde,
e a vida, corcel rubro, dava um coice,

mas tão delicioso, que a ferida
no peito transtornado, aceso em festa,
acordava, gravura enlouquecida,
sobre o tempo sem caule, uma promessa.

A manhã sempre-sempre, e dociastutos
eus caçadores a correr, e as presas
num feliz entregar-se, entre soluços.

E que mais, vida eterna, me planejas?
O que desatou num só momento
não cabe no infinito, é fuga e vento.”

(Carlos Drummond de Andrade)

Espera

Estávamos frente-a-frente. Entre nós, a distância não superava um metro. Silêncio total, quase mortal. Eu o olhava e ele me olhava. Uma troca que em determinados momentos ganhava ares de duelo como se ele dissesse: você não vai resistir. Mas logo depois parecia me observar com cumplicidade, quem sabe até mesmo pena. Era como se tentasse me consolar: não fica assim... Ou será que ele estava tentando ser meu conselheiro com uma frase do tipo: isso não vale a pena? Não, não, não! Estático diante de mim, ele não dizia nada. Nenhum som, nenhum movimento.

Inquieta e sem controlar a ansiedade, eu já estava dando a batalha por vencida. Toquei nele como que pedindo uma trégua e foi aí que, inesperadamente, ele saiu da inércia. Nas minhas mãos ele vibrava ao mesmo tempo em que tocava. Olhei para a tela azul, que naquele momento parecia ainda mais azul e li um nome que não era o nome de quem eu tanto gostaria que fosse. Atender ou ignorar? Minha opção, sem hesitar, foi a segunda. Instantaneament…

Por que somos infelizes no amor?

Recentemente adquiri o hábito de visitar blogs, sejam de amigos ou de desconhecidos. Para passar meus momentos de ócio no trabalho vou indo de um pra outro e daí para mais um, e para mais outro... Nesses passeios virtuais tenho visto muita coisa interessante. Interessante como esse texto, publicado na Folha de São Paulo que encontrei, hoje pela manhã, em dois blogs diferentes. Coloco aqui porque me fez, assim como a meus companheiros na grande rede, pensar.


Closer - Perto Demais: por que somos infelizes em amor?

"Concordo com Caetano Veloso, 'de perto ninguém é normal'. Mas Closer - Perto Demais, de Mike Nichols, me deixou pensando diferente: de perto, somos normais demais. O filme é uma demonstração tocante de nossas impotências e incompetências sentimentais. Se você quer saber por que, em regra, somos infelizes em amor, não perca.
Para não estragar o prazer de quem não viu o filme, nada de resumo, apenas as reflexões fragmentárias com as quais passei a noite, depois de te…

O quê???

Uma pergunta que eu repetidamente faço é: o que leva as pessoas a acreditarem que para escrever bem é preciso utilizar uma linguagem rebuscada? Ao contrário! Sobretudo em uma língua que, como a portuguesa, não tem a simplicidade e a facilidade como características. Podemos passar toda a vida estudando português e, ainda assim, restarão dúvidas, detalhes para aprender e muitas exceções a regras para lembrar. Na linguagem falada coloquial, cheia de gírias e com um grande descaso com à gramática, até que é simples, mas quando é preciso recorrer a um vocabulário mais formal, seja para falar ou escrever, surgem os problemas.
Seria trágico se não fosse cômico. Ou seria cômico se não fosse trágico? Acho que ambas as versões traduzem coisas como: "ao ultrapassar 30 anos de existência". Ultrapassou os trinta, isso é certo, mas será que tem 31, 36, 40, 77 ou 100anos? A frase veio em um texto que recebi por e-mail e não estava só. O release que deveria servir como fonte para uma notinh…

Flor amarela

Na beira da estrada vi uma flor amarela. Nascida do nada, resistente a tudo. Parei diante dela e sorri. Com reverência abaixei-me para vê-la mais de perto. Sob minha sombra, a intensidade da cor e a suavidade das pétalas ressaltaram, saltaram. Amarelas. Intensas. Vivas. Diante de meus olhos cansados estava o ouro da vida. Resistência e beleza, apesar das dificuldades e além das adversidades. Me levantei com disposição e, amarela, segui meu caminho.

Aquele apartamento

A porta se abriu e eu entrei naquele apartamento com vontade de que ele fosse meu também. Queria mais do que morar ali, queria viver sob a proteção daquele teto, ser observada diariamente por aquelas paredes brancas, sentir me tocar o vento que no fim de tarde entra por aquela janela, adormecer nas almofadas de algodão espalhadas por aquele chão para, quando acordar no meio da noite, dar apenas alguns passos e chegar àquele quarto, me jogar naquela cama e ter ao meu lado aquele que tanto desejo. Tantos desejos... Apenas desejos. Eu não era parte daquele apartamento e quando saí de lá, senti a angústia que acompanha todas as despedidas, a tristeza de uma saudade precoce e a vontade de voltar a um tempo que já se foi. Fechei a porta devagar mas me deixei ficar ali, parada para que, mesmo que brevemente, o olho mágico me visse chorar sorrindo.

Sonhando acordada

Difícil saber o que dizer em momentos como aquele. Acontecimentos atropelaram o previsível e me colocaram em um lugar onde todas as possibilidades eram possíveis. Tão possíveis quanto as impossibilidades. Não e sim, de mãos dadas, observavam minha inquietação. Sorri para o talvez e me rendi ao fato de que, certo ali, só o caráter ilusório de qualquer previsão. Ilusão e realidade se confundiam e eu não me sentia capaz de diferenciar uma da outra, para mim era tudo surpresa.

Surpresa. Era essa a palavra! Definia a situação e definia melhor ainda o meu estado. Surpreendida, eu tive medo justamente diante do que sempre me atraiu, o inesperado. Desejado sim, muito desejado, mas ainda assim inesperado. Por isso, passei de leve as mãos sobre meus olhos, gesto quase instintivo para me certificar se estava dormindo.

Talvez sonhasse, mas meus olhos abertos indicavam que, se fosse um sonho, não era um sonho qualquer. Ele tinha um rosto e estava adormecido a meu lado. Passei de leve os dedos pelos …

As rosas não falam

“Bate outra vez
com esperanças o meu coração
pois já vai terminando o verão
enfim.

Volto ao jardim
com a certeza que devo chorar
pois bem sei que não queres voltar
para mim.

Queixo-me às rosas
que bobagem
as rosas não falam
simplesmente as rosas exalam
o perfume que roubam de ti.

Devias vir
para ver os meus olhos tristonhos
e quem sabes sonhava meus sonhos
por fim.”

(Cartola)

Um carnaval que passou

Passou o carnaval, passou a quarta-feira com cara de domingo, passou a ressaca. Passaram na folia dos blocos muitas histórias. Como em um desfile de escola de samba, um enredo com passado, presente e, talvez, futuro. Na praia de Ipanema, nas ruas do Centro ou nas ladeiras de Santa Teresa circularam personagens importantes de uma história que é minha, mas não só minha.

Foram dias alegres com amigos queridos mas que pouco se encontram. Foram dias de emoção e surpresa com a presença de amores, superados ou não. Foram dias de saudade passada a limpo e de lembranças relembradas. Foram dias de um carnaval especial que, pelo menos para mim, não acabou em cinzas. Acabou com resistentes grãos de purpurina indicando que a alegria não precisa ser efêmera.

É carnaval

Já é carnaval. E nesse dia ninguém chora. Não chora porque é o hoje o dia da alegria e a tristeza nem pode pensar em chegar. Vou tomar parte na festa, vou tomar um porre de felicidade, vou sacudir, eu vou zoar toda a cidade. Quanto riso, ó quanta alegria! Serei um dos muitos palhaços no salão. Mas não quero ver o Alecrim chorando pelo amor da Colombina, mesmo que a Colombina seja eu. Se foi um rio que passou em minha vida, certamente vai passar... Se não foi, explode coração na maior felicidade! Mas só depois que o bloco passar, porque, afinal é carnaval e até a quarta-feira de cinzas meu único compromisso é com a diversão.

Vai passar

"Vai passar
nessa avenida
um samba popular
casa paralelepípedo
da velha cidade
essa noite vai
se arrepiar
ao lembrar
que aqui passaram
sambas imortais
que aqui sangraram pelos
nossos pés
que aqui sambaram
nossos ancestrais

Num tempo
página feliz
da nossa história
passagem desbotada
na memória
das nossas
novas gerações
dormia a nossa pátria mãe
tão distraída
sem perceber
que era subtraída
em tenebrosas transações

Seus filhos
erravam cegos
pelo continente
levavam pedras
feito penitentes erguendo
estranhas catedrais
e um dia, afinal
tinham direito
a uma alegria fugaz
uma ofegante epidemia
que se chamava carnaval
o carnaval, o carnaval
(vai passar)
palmas pra ala
dos barões famintos
o bloco dos
napoleões retintos
e os pigmeus do boulevard
meu deus, vem olhar
vem ver de perto
uma cidade a cantar
a evolução da liberdade
até o dia clarear

Ai, que vida boa, olerê
ai, que vida boa, olará
o estandarte do
sanatório geral
vai passar"

(Chico Buarque)

Seguindo nuvens

O pátio do colégio era enorme. Aliás, tudo lá era muito grande. Não. Era mais que isso, bem mais que grande. Era exagerado. Portas e janelas que para um adulto já eram de um tamanho fora do comum, para uma criança de 6 anos adquiriam dimensões desproporcionais. Seria uma construção até bonita se não fosse tão cinza, se não tivesse tão impregnada pela aura castradora e repressora típica dos colégios católicos tradicionais. Aquele não era meu lugar e o que me fez suportar as tardes intermináveis de um longo ano letivo foram os poucos minutos em que eu podia sair da sala, passar pelos corredores longos, escuros e frios e ir até um jardim interno, belo e acolhedor. Lá eu me sentava no chão e, alheia a toda aquela atmosfera, observava as nuvens. O movimento suave delas pelo céu azul era tão inspirador que mantive esse hábito. Hoje, observando da minha mesa de trabalho as nuvens, lembrei e tive a certeza que foram elas que me trouxeram até aqui.

Lembranças deste e de outros carnavais

Baile no clube. Esta é a minha lembrança mais remota de carnaval. Antes disso, sei mas não lembro, costumava ir para a Avenida Atlântica com minha avó. Programa família que eu, ainda bebê e fantasiada de índia, não entendia muito bem. Mas foi nas matinês que entendi o carnaval como uma festa, uma grande festa. O salão era divido ao meio por uma corda, de um lado os pequenos e suas fantasias, do outro aqueles pré-adolescentes e adolescentes que, embora na época ainda não se usasse tanto estes termos, tinham o típico comportamento da idade.
Passava a manhã na praia e logo após o almoço me vestia de cigana, havaiana, melindrosa, coelhinha... Os modelitos mais frescos e, talvez por isso, os mais comuns também. Mas houveram anos como aquele em que eu quase derreti dentro de uma linda roupa de palhaço. Conforme ia crescendo me aproximava da corda e quando finalmente pude passar para o lado de lá, já não queria mais fantasias, no máximo uma blusa de time de futebol. Continuei crescendo e fui…

Dois de fevereiro

"Dois de fevereiro
Dia de festa no mar
Eu quero ser o primeiro
Pra salvar Iemanjá
Dia 2 de fevereiro
Dia de festa no mar
Eu quero ser o primeiro
Pra salvar Iemanjá
Escrevi um bilhete a ela
Pedindo pra ela me ajudar
Ela então me prometeu
Que eu tivesse paciência de esperar
O presente que eu mandei pra ela
De cravos e rosas vingou
Chegou, chegou, chegou
Afinal que o dia dela chegou
Chegou, chegou, chegou
Afinal que o dia dela chegou
Dia 2 de fevereiro
Dia de festa no mar
Eu quero ser o primeiro
Pra salvar Iemanjá"

(Dorival Caymmi)

Esquentando os tamborins

Pedi a bênção a Momo e já escuto o som inconfundível dos tamboris, a energia dos bumbos e a irreverência da cuíca. Percebo os primeiros confetes caindo e algumas tiras de serpentina já cortam o céu. É o carnaval que chega, empurrando nossos problemas para depois e nos permitindo viver a alegria e o prazer, mesmo que efêmeros. Corpos suados ritmados por um batuque contagiante e estimulados pela idéia de que, no carnaval, tudo é possível. Esquecerei que em algum momento passado, por um motivo desconhecido, fui batizada. Voltarei a ser pagã e me entregarei sem culpa a mais profana das festas.
Não vou aderir a fuga, quase desesperada, para cidades de veraneio ou capitais nordestinas. Tão pouco vou me render à alegria artificial e cronometrada da Sapucaí. Nada de estradas engarrafadas, camarotes VIPs ou fantasias luxuosas. Vestirei meu short mais velho e minha camiseta confortável para ir lá para onde o carnaval fez sua fama: a rua. Nos blocos onde a alegria coletiva nos faz acreditar, pel…

Sonho

Essa noite alguém especial veio me visitar. Uma visita de surpresa, tão inesperada quanto desejada, mas muito bem-vinda. Era só um sonho e a felicidade efêmera típica dos sonhos me fez acordar ao lado da saudade. Ah... A saudade. Fico então com ela, companheira saudosa na busca por aquele dia em que a realidade se mostrará tal como um sonho.