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Ausência

"Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto, e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surja em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás
A tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada."


(Vinícius de Morais)

Comentários

Jana disse…
Olá, adorei o seu blog! Tem muitos textos que nos fazem pensar! E é muito bom encontrar conforto em palavras... este texto do Vinícios, por exemplo. Foi maravilhoso lê-lo agora!

Parabéns, abração!!
Anônimo disse…
Querida amiga,
Essa prosa lírica de Vinicius eu não conhecia. Me tocou profundamente, e a tomei emprestado para reproduzir uma parte em meu blog e tb no meu perfil no orkut. Como um mestre da poesia faz isso, não sei, não há explicação...Kafka tb foi um visionário. Por isso que venho aqui, Roberta, para iluminar um pouco minhas angústias, minhas loucuras ...e minhas escritas.
bjs
Mauro Cassane