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Espera

Estávamos frente-a-frente. Entre nós, a distância não superava um metro. Silêncio total, quase mortal. Eu o olhava e ele me olhava. Uma troca que em determinados momentos ganhava ares de duelo como se ele dissesse: você não vai resistir. Mas logo depois parecia me observar com cumplicidade, quem sabe até mesmo pena. Era como se tentasse me consolar: não fica assim... Ou será que ele estava tentando ser meu conselheiro com uma frase do tipo: isso não vale a pena? Não, não, não! Estático diante de mim, ele não dizia nada. Nenhum som, nenhum movimento.

Inquieta e sem controlar a ansiedade, eu já estava dando a batalha por vencida. Toquei nele como que pedindo uma trégua e foi aí que, inesperadamente, ele saiu da inércia. Nas minhas mãos ele vibrava ao mesmo tempo em que tocava. Olhei para a tela azul, que naquele momento parecia ainda mais azul e li um nome que não era o nome de quem eu tanto gostaria que fosse. Atender ou ignorar? Minha opção, sem hesitar, foi a segunda. Instantaneamente, movimentos e sons cessaram. De volta ao silêncio eu pensei: não, ele não vai me ligar.

Joguei o pobre do aparelho em cima da cama e me deitei no chão. Quem eu encarava agora era o teto, mas esse, esse era só um teto e como tal, não me olhava de volta, é claro. Fiquei ali, imóvel como um celular que não toca. O sono já estava quase me pegando quando resolvi reagir e fazer as pazes com meu telefone. Peguei-o de volta e na tela ainda estava escrito: uma ligação não atendida. O que fazer então? Ele me deu a opção de ver e eu vi. Me deu a opção de ligar e eu liguei. Alô. Não era a voz de quem eu gostaria que fosse. Não... Não era. Mas era a voz que queria falar comigo. Alô.

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