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Mostrando postagens de Março, 2005

Sua

Serei sua como se fosse, pela primeira vez, a última vez. Como se fosse a única vez, desejarei mais uma vez. Só agora, estarei com você para sempre. Como se o sempre fosse agora, como se o agora fosse para sempre e como se o sempre nunca chegasse. Olharei para você reconhecendo a mim conhecendo você quando ainda não o conhecia. Desconhecerei você para, de novo, conhecê-lo. Lembrarei de esquecer. Esquecerei de lembrar. Mas se esquecer de esquecer ou lembrar de lembrar, serei sua. Mais uma vez, como nunca. Como sempre, para um sempre que já acabou. Acabou?

O ponto de recomeçar

Estava no meio de um caminho. Distâncias exatamente iguais entre dois pontos que não sabia identificar como sendo de partida ou de chegada. Não lembrava se vinha da esquerda ou da direita, não sabia sequer onde ficava esquerda e direita. Essa referência mudava cada vez que girava o corpo, mas para qualquer lado que virasse o que via era uma aridez angustiante que ia, gradativamente, ganhando cor. A mudança era tênue, mas a fazia acreditar que em algum ponto um pouco mais além as cores ganhariam exuberância e a vida se faria presente. Não conseguia ver, seus olhos cansados não chegavam até lá, mas sentia a energia acalentadora de uma esperança que não sabia se estava no antes ou no depois. Havia pedido também a referência temporal. Passado e futuro se misturavam e em alguns momentos pareciam ser, juntos, a felicidade possível. Fechou os olhos, abriu o coração e se deixou levar por pés que ainda tinham força para recomeçar.

Anunciação

"Na bruma leve das paixões que vem de dentro
Tu vens chegando pra brincar no meu quintal
No teu cavalo peito nu cabelo ao vento
E o sol quarando nossas roupas no varal

Tu vens tu vens
Eu já escuto os teus sinais
Tu vens tu vens
Eu já escuto os teus sinais

A voz do anjo sussurrou no meu ouvido
E eu não duvido já escuto os teus sinais
Que tu virias numa manhã de domingo
Eu te anuncio nos sinos das catedrais

Tu vens tu vens
Eu já escuto os teus sinais
Tu vens tu vens
Eu já escuto os teus sinais"

(Alceu Valença)

Só o tempo

"Largo a paixão
Nas horas em que me atrevo
E abro mão de desejos
Botando meus pés no chão
É só eu estar feliz
Acende uma ilusão
Quando percebe em meu rosto
As dores que não me fez
Ah, meu pobre coração
O amor é um segredo
E sempre chega em silêncio
Como a luz no amanhecer
Por isso eu deixo em aberto
Meu saldo de sentimentos
Sabendo que só o tempo
Ensina a gente a viver"

(Paulinho da Viola)

A possibilidade de todas as cores

O silêncio é branco. Como a cor que é ao mesmo tempo todas as outras, a ausência de palavras, escritas ou faladas é, para mim, a possibilidade de todas as possibilidades. As respostas que não são dadas, não são um não, tão pouco um sim, são talvez um talvez. Talvez não sejam nem palavras, mas um ponto de interrogação a brincar de espelho com as perguntas que fazemos. Podem ser também um ponto de exclamação indicando aquelas emoções capazes de fazer as palavras perderem sentido. Há ainda a possibilidade das reticências, três pontinhos que empurram para adiante qualquer definição. Sem falar na vírgula, uma pausa para pensar, e no ponto é vírgula, uma pausa longa mas não definitiva. Mas sendo o silêncio branco, ele não é um ponto final. A não ser quando inverte-se a ordem e ele vem após o fim. Depois do fim, o silêncio perde, uma a uma, todas as cores presentes no branco e torna-se preto. É quando as luzes se apagam e já não se pode dizer mais nada.

Passou

Migalhas de atenção. Farelos de amor deixados sobre a mesa. Carinho guardado na geladeira. Sentimentos requentados no microondas. Amor com prazo de validade vencido. Isso é pouco, muito pouco, e eu quero mais. Relacionamentos sobrevividos em doses pequenas e esporádicas, eu não quero. Quero relacionamentos vivos para serem vividos. Quero viver o presente no presente e quando ele perder a possibilidade de futuro, tornando-se passado, quero deixa-lo passar. Quero, na hora certa, saber dizer adeus porque imperecível, só o amor que tenho por mim.

Essa lembrança que nos vem

"Essa lembrança que nos vem às vezes...
folha súbita
que tomba
abrindo na memória a flor silenciosa
de mil e uma pétalas concêntricas...
Essa lembrança...mas de onde? de quem?
Essa lembrança talvez nem seja nossa,
mas de alguém que, pensando em nós, só possa
mandar um eco do seu pensamento
nessa mensagem pelos céus perdida...
Ai! Tão perdida
que nem se possa saber mais de quem!"

(Mário Quintana)

Se apaixonar é preciso

Esperar ansiosamente o telefone tocar. Se pegar sorrindo sozinha só por lembrar do fim de semana passado. Desenhar flores e corações nas folhas em branco que estão sobre a mesa. Escrever mensagens no celular e não ter coragem de mandar. Fazer planos para o futuro. Acreditar que é para sempre. Sonhar. Que adolescente não passa por tudo isso? Mas a surpresa vem mesmo quando essas sensações surgem e a adolescência já é parte do passado.
A estudante deu lugar à profissional competente e bem sucedida. Os boletins foram substituídos por contas a pagar. Loções para espinhas começam a perder lugar para cremes anti-idade. E os bebês, mesmo que ainda não existam ou não façam parte dos planos, estão mais próximos do tempo presente que as bonecas. Vida adulta completa e eis que surge, inesperadamente, aquela paixão capaz de acelerar os batimentos cardíacos, alterar o sono e fazer suspirar como aquela adolescente na foto do porta-retrato. Paixonite adolescente sim, por que não?
A mesma intensidade…

O que os olhos não vêem

Travo com meus olhos uma luta, um teste de resistência onde, apesar da força não ser determinante, há um desgaste físico e mental. Eles parecem acreditar, e querer me convencer, de que fechando-se encontrarão, por trás das pálpebras, uma realidade mais simples e tranqüila. Eu penso que isso que eles buscam seja, talvez, uma realidade irreal. A cada piscada mais demorada, sinto que minha força e minha esperança estão se esvaindo.

Vejo, provavelmente por trás de minhas próprias pálpebras, a imagem de um punhado de areia escorrendo por entre meus dedos. Essa não é uma imagem nova. Já me foi dita na tentativa de ilustrar sentimentos alheios tão confusos quanto os que agora sinto. Tento segurar os grãos, mas eles escapam de minhas mãos em velocidade crescente.

Se eu pudesse levar de volta todo o punhado de areia que já não está mais naquelas mãos alheias, talvez sentisse minhas mãos cheias e conseguisse manter meus olhos abertos. O que eu queria ver é uma realidade que já foi real e agora é …

Jacas pelo caminho

Tem dias que é inevitável pensar que o melhor lugar para se estar é a cama. Hoje é um deles. Digo isso não só por causa da chuva que cai, em alguns momentos fraca, em outros fortes, mas sem dar trégua desde o inicio do dia. Aliás, os problemas começaram justamente por causa dela. Logo cedo, a hora não sei precisar, uma jaqueira cruzou aquele que deveria ser o meu caminho. Não consegui chegar até lá para ver, mas o rádio me informou que uma jaqueira de 20 metros tombou, com todas as suas jaquinhas, justamente onde eu deveria passar.
A notícia chegou quando eu já estava subindo a via de mão dupla, uma espécie de serra no meio da cidade, que corta a Floresta da Tijuca. Caminho habitual e muito bonito, mas que se torna caótico com qualquer probleminha. E uma jaqueira de 20 metros não é exatamente um probleminha. O resultado foi a interdição total de um das pistas e parcial da outra. Se esse não fosse um dos dias em que é inevitável pensar que o melhor lugar para se estar é a cama, a pista…

Medo

Era o medo que o paralisava, que o impedia de ir ao encontro daquilo que queria. Não precisava buscar, porque já havia encontrado. Não precisa conquistar, porque ela já era sua. Mas ele recusava-se a ser dela. Era de outras, muitas outras, mas não daquela que o amava com tal intensidade, que seus sentimentos pareciam apenas um gostar desempolgado. Mas ele gostava mais. Amava. Mas era o medo que o paralisava, que o impedia de ir ao encontro daquilo que, querendo, fingia não querer. Desejando, não desejava aquela mulher. Amando, não a amava. Sofrendo, não percebia que o sofrimento era por medo de sofrer. Era o medo que não o deixava amar.
"Seja por causa da pressão atmosférica ou efeito de embaraço gástrico, há dias em que nos pomos a olhar o transcurso passado da nossa vida e o vemos vazio, inútil, assim como um deserto de esterelidades por cima do qual brilha um grande sol autoritário que não nos atrevemos a olhar de frente. Qualquer recanto nos serviria então para recolher a vergonha de não termos alcançado um simples patamar donde outra paisagem mais fértil se mostrasse. Nunca como nessas ocasiões se toma maior conciência de quanto é difícil este aparentemente imediato ofício de viver, que não parece sequer requerer aprendizagem. É nesses momentos que fazemos decididos projectos de exaltação pessoal e nos dispomos a modificar o mundo. O espelho é de muito auxílio no dispor das feições adequadas ao modelo que vamos seguir."

(José Saramago - A Bagagem do Viajante)

440 anos

Seis horas da manhã do dia 1º de março de 1565. Nasce, numa praia na Baía de Guanabara, entre os morros Cara de Cão e Pão de Açúcar, a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Lá se vão 440 anos de história escrita em prosa e poesia e cantada em versos, muitos versos. Uma pesquisa revelou que o Rio de Janeiro é a cidade mas cantada do mundo. Foram encontradas mais de 3 mil músicas que falam, de alguma forma sobre a cidade e seu povo. Esse pedaço de terra, espremido entre o mar e as montanhas, inspirou muitos compositores e, para comemorar o aniversário de 440 anos, um jornal carioca promoveu, em seu site, a eleição da música que é a cara do Rio. As cinco mais votadas mostram, em versos, a diversidade, o bom humor e a alegria locais. A vencedora foi Samba do Avião, de Tom Jobim, ele mesmo uma das muitas caras do Rio. Não há carioca, de nascença ou por opção, que não se emocione ao ouvir:
Minha alma canta , Vejo o Rio de Janeiro
Estou morrendo de saudade
Rio teu mar praias sem fim
Rio voc…