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Mostrando postagens de Abril, 2005

Outono

O vento do outono começa, com atraso, a soprar. Das folhas das árvores que balançam, das nuvens que se movem no céu e dos finos pingos de chuva que caem, vêem as notícias de uma vida que segue, embalada por lembranças ainda presentes, estimuladas por novidades que já se anunciam e fundamentadas na vontade intensa de viver devagar. Sem pressa do inverno chegar.

A lua

Pelo vidro da janela a lua iluminou o quarto. Um foco de luz intensa sobre sonhos recém sonhados. Um brilho de esperança no meio de uma noite solitária. Um frescor acalentador para os calores do corpo, do coração e da alma. Uma interferência inusitada na louca maré das paixões. Ou seria nas marés de uma única paixão? Sorri para ela e, mesmo à distância, ela me conduziu novamente para cama, me embalando até que eu atingisse o sono sereno dos que sabem que o amanhã será melhor.

O haver

"Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...
Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.
Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.
Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história...
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa…

Juventude

“De agora em diante, decidiu, sempre vai se colocar no caminho do acaso. Os livros estão cheios de encontros casuais que levam ao romance – ao romance ou à tragédia. Está pronto para o romance, pronto até para a tragédia, pronto para qualquer coisa de fato, contanto que seja consumido e por isso refeito.
(...)
O acaso não o brinda com nenhuma de suas bênçãos. Mas o acaso é imprevisível, é preciso dar tempo ao tempo. Tudo o que pode fazer é esperar em prontidão o dia em que o acaso por fim lhe sorrir.”

(J.M. Coetzee – Juventude)

O caminho do sonho

O dia estava lindo. Dos dois lados da estrada era infinitas as variações de verde. Tons sobre tons ganhando movimento com a brisa leve que soprava. A cada curva, mais cores. Pontos amarelos, vermelhos, rosas e laranjas em meio a folhagem só não chamavam mais atenção que a borboletas azuis. Acompanhadas ou em show solo, elas dançavam diante do pára-brisas do carro, exibindo a intensidade da cor, a leveza dos movimentos e a alegria de voar livre sobre um céu de azul tão envolvente quanto o delas. O céu... Esse, brincava de esconde-esconde com as montanhas, revelando-se e escondendo-se a cada subida e descida do caminho. Um jogo que revelou, ao fundo, o mar. Verde e azul unidos em toda a simbologia do oceano.

Mas a cabeça estava longe. Em campos que deveriam ser tão verdes quanto aquela vegetação, montanhas certamente tão altas quanto as que emolduravam aquela paisagem e um céu tão azul quanto aquele que, agora, lhe dava bom dia. Imaginava o jogo de cores, os cheiros e sons de um lugar on…

Amigas

Reencontros são sempre especiais. Lembranças trazidas ao presente, histórias quase esquecidas rememoradas, saudades minimizadas. É bom encontrar amigos, pessoas queridas que foram importantes mas que, em algum momento, seguiram por caminhos diferentes do nosso. É melhor ainda quando os reencontros trazem junto a constatação de que o tempo que passou, nos deixou ainda melhores.

Éramos sete amigas inseparáveis na escola. Por motivos diversos, era como se lá não fosse o lugar de nenhuma de nós. Nos juntamos então em um grupo heterogêneo, unido e, agora sei, capaz de superar a distância, geográfica e temporal. Após 15 anos nos reunimos de novo. Quase um encontro surpresa, arquitetado através de mensagens eletrônicas. Tinha tudo para não dar certo, mas deu. Trabalhos, academias, cursos, maridos e namorados tiveram que esperar. Aquela noite era nossa.

Estávamos ali, com muitas histórias e experiências para contar. Com alguns quilos a mais ou a menos, cabelos mais curtos ou mais compridos, mai…

Vivendo

Como saber? Como ver? Como entender? Perguntas recorrentes. Perguntas sem respostas. Mas haverá respostas? E se houver, o que saber, o que ver, o que entender? Para que? O melhor mesmo, parece, é viver. Só viver, simples assim. Sem perguntas e sem respostas, mas com experiências vividas. Intensamente, mas ao mesmo tempo despretensiosamente. Sem teorias, mas com muita sensibilidade. Abandonando a ansiedade, mas preservando a inquietação. Uma dança a dois com a vida, se deixando conduzir por ela ao ritmo dos acontecimentos.
"Se for possível, manda-me dizer:
- É lua cheia. A casa está vazia -
Manda-me dizer, e o paraíso
Há de ficar mais perto, e mais recente
Me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
Tão longo como a noite. Se é verdade
Que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
De alguns peixes rosados
Numas águas
E dos meus pés molhados, manda-me dizer:
- É lua nova -
E revestida de luz te volto a ver".

(Hilda Hilst)

Sintonia

A comunicação entre eles dispensava palavras e ignorava a distância. Sempre foi assim, embora eles tenham demorado a perceber que, mesmo longe e sem intenção, dividiam alegrias e problemas. Só compreenderam isso quando já estavam separados, quando as notícias se tornaram escassas e o contato físico era somente a lembrança de um passado recente.

A mudança de casa, a troca de emprego e os problemas com a família foram alguns dos acontecimentos sentidos em forma de sentimentos inesperados e inexplicados. Uma tristeza sem causa aparente, uma alegria sem motivo específico, uma vontade de ligar ou escrever que surgia, de repente, no início de um dia de trabalho, no meio de uma tarde de sol ou durante uma noite de insônia.

Mas agora, qual era o valor de pensamentos tão sintonizados? Qual o sentido de perceber a felicidade do outro mas não mais poder dividi-la? E a tristeza, as dificuldades e os momentos difíceis, por que identificá-los à distância se não é mais possível se aproximar para ajuda…

Só o começo

Acordou cedo, antes mesmo do despertador tocar. Para ele aquele seria um dia importante, após dois anos dando aula em um curso de informática era a primeira vez que visitaria uma empresa como consultor. Consultor! Precisava estar de acordo com essa que, agora, era sua atividade. Tomou um café da manhã reforçado, um banho demorado e vestiu a roupa que havia separado na noite anterior. Calça e blusa pretas.

Saiu de casa cedo, a empresa ficava na Barra e ele não queria se atrasar na primeira visita a seu primeiro cliente. Preferiu não pegar um ônibus, muita gente e calor, e optou por uma van com ar condicionado. Assim chegaria mais rápido e ainda com o cheiro do perfume que só usava em ocasiões especiais.

Chegou. E como previsto, antes do horário combinado. Esperando o tempo passar, parou para tomar um café no shopping onde funcionava a empresa. Shopping era só uma forma de dizer, na verdade era um centro comercial aberto e a mesa em que havia se sentado logo foi tomada pelo sol. O calor …
"Ir até ao fim não é apenas resistir mas também não resistir. Tenho necessidade de sentir a minha própria pessoa, na medida em que ela é o sentimento daquilo que me ultrapassa. Por vezes preciso de escrever coisas que em parte me escapam, mas que provam justamente o que em mim é mais forte do que eu".

(Albert Camus)

Sempre haverá o depois

Manter um blog tem sido, para mim, uma ótima experiência. Além do exercício e da prática da escrita, fundamentais para quem se arrisca, seja no jornalismo ou na literatura, no universo das letrinhas, a exposição dos meus textos permitiu que eu tivesse contato com pessoas muito especiais. Gente que me lê com atenção, comenta, incentiva e, embora não me conheça, demonstra um grande carinho por aquilo que escrevo. Vendo o blog de uma dessas amigas, li algo que traduz muito do que sinto e vivo no momento. O trecho é parte de um texto bem maior, uma homenagem dela a uma amiga, mas como acho que se aplica a tantas outras situações, coloco aqui.
"A nossa caminhada não começou agora e nem há de terminar aqui, você e eu sabemos muito bem disso. Mesmo que a vida nos afaste nesse instante, sempre haverá o Depois, apesar de eu desejar viver o Agora com toda a extensão da minha alma"

Hariel Noone
(www.deixarolar.blogger.com.br)

Espelho de mim

Olhei para o espelho e perguntei:
- Quem é você?
- Eu não sou você.
Parei, não tanto pelo susto de ter tido uma resposta, mas pela resposta.
- Como eu não sou eu?
- Eu não sou você e, portanto você não sou eu. Simples assim.
Achei a situação absurda, mas continuei:
- Então quem é você?
- O que sou eu!
- O que?
- O que. Não quem.
- O que então é você?
- Uma imagem, só uma imagem.
Já irritado gritei:
- A minha imagem!
- Sua, é verdade... Foi você que me criou.
- Criei?
- Sim, criou.
- Criei a mim mesmo?
- Não, criou a imagem.
- E não é a mesma coisa?
- Nem sempre. Ou quase nunca.
Não sabia se havia enlouquecido e, atônito, me calei. Mas minha imagem continuou:
- Sou o que você pensar ser, o que tenta parecer ser e não necessariamente o que você é.
- Não?
- Você não é mais do que uma imagem?
- Claro!
- Então...
- Então o que?
- Não sei, sou só uma imagem.
- E eu?
- Você?
- Eu!
- Você, só você pode saber.