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Só o começo

Acordou cedo, antes mesmo do despertador tocar. Para ele aquele seria um dia importante, após dois anos dando aula em um curso de informática era a primeira vez que visitaria uma empresa como consultor. Consultor! Precisava estar de acordo com essa que, agora, era sua atividade. Tomou um café da manhã reforçado, um banho demorado e vestiu a roupa que havia separado na noite anterior. Calça e blusa pretas.

Saiu de casa cedo, a empresa ficava na Barra e ele não queria se atrasar na primeira visita a seu primeiro cliente. Preferiu não pegar um ônibus, muita gente e calor, e optou por uma van com ar condicionado. Assim chegaria mais rápido e ainda com o cheiro do perfume que só usava em ocasiões especiais.

Chegou. E como previsto, antes do horário combinado. Esperando o tempo passar, parou para tomar um café no shopping onde funcionava a empresa. Shopping era só uma forma de dizer, na verdade era um centro comercial aberto e a mesa em que havia se sentado logo foi tomada pelo sol. O calor e a vontade de ir ao banheiro aumentaram a ansiedade e ele não suportou mais esperar. Subiu pouco antes das 10 horas.

Foi recebido por uma aluna sua, funcionária da empresa que o havia indicado para o trabalho de consultoria. Ela ofereceu água, e meio sem graça, mas apoiado na relação professor/aluno, disse que precisava mesmo era ir ao banheiro. Foi, e como o escritório não era muito grande, pode ver quase todos os ambientes antes de chegar lá. Na primeira saleta uma menina ao telefone, do outro lado duas pessoas conversavam em inglês, separados por uma divisória de outros três que olhavam fixamente para as telas de seus computadores.

O banheiro era um tanto apertado, mal tinha espaço para se olhar no espelho. Tirou-o então da parede e foi aí que aconteceu. Ele caiu sobre a pia e os cacos instantaneamente se espalharam, no chão e nele. O barulho alto ainda não tinha cessado quando ele ouviu as vozes que vinham de fora. O que aconteceu? Abre essa porta! A vontade era se esconder, mas abriu. Talvez na expectativa de sair correndo sem nem olhar para trás. Mas isso não foi possível. Todos os funcionários estavam amontoados diante dele querendo ouvir alguma explicação.

Recuperado do susto, mais ainda dominado pela vergonha, disse qualquer coisa e começou a fazer o que tinha ido fazer ali. Seu trabalho não era quebrar espelhos, embora estivesse se sentindo como um daqueles caquinhos que ficaram caídos pelo chão. Nada que não pudesse ser superado no futuro que ele teria como consultor. Essa foi só a primeira história.

Comentários

F. Lopez disse…
O inesperado sempre nos persegue... Abraços.