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Mostrando postagens de Maio, 2005

Indo...

Há dias melhores e dias piores. E quando se está indo, a oscilação entre um e outro é constante e, quase sempre, abrupta. Sei que é assim mas anseio pelo dia em que não mais seja. Sim, porque entre tantas dúvidas e questionamentos insanos, acredito que a superação é possível. Ou seria a recuperação? Mais um não sei que digo. São tantos, que já estou desistindo de saber alguma coisa. Não sei mais que dia é hoje, não sei mais se quero beber água ou cerveja, não sei se gosto mais do amarelo ou do rosa, não sei se opto pelo pessimismo ou pelo otimismo, não sei se acredito ou desacredito. Em que? Não quero saber. Quero, talvez, sentir. Mas tenho medo. Tenho medo que meus olhos sintam o escuro ao invés do claro, que minha língua sinta o amargo ao invés do doce e que meu coração... Ah, tenho medo que meu coração não sinta mais, nem a dor e nem o amor. Não quero a anestesia, que apenas ameniza o sofrer. Assim, ele, esse sofrimento insuportável, se prolonga e me isola. Me coloca num indo de lu…

Bilhete

"Se tu me amas,
ama-me baixinho.
Não o grites de cima dos telhados,
deixa em paz os passarinhos.
Deixa em paz a mim!
Se me queres, enfim,
tem de ser bem devagarinho,
amada,
que a vida é breve,
e o amor
mais breve ainda".

(Mario Quintana)

Confusão

Os pensamentos estão desconexos. Dúvidas. Os movimentos ficam lentos. Inércia. O olhar permanece fixo. Lágrimas. O chão parece distante. Vertigem. O corpo pede. Descanso. A mente berra. Socorro! O telefone toca. Silêncio. O que? Medo. A luz acende. Barulho. A cabeça acelera. Ai! O coração dói. Descompasso. O passado já vai. Saudade. O futuro não chega. Espera. Os sentimentos embriagam. Desequilíbrio. A luz se apaga. Claridade. Os olhos se fecham. Esperança. O tempo passa. Amanhã.

Amigos

Talvez eu seja uma romântica incurável. Apesar e/ou além de tudo, acredito no amor em todas as suas formas e especialmente nesse amor que nos leva a sentir em alguém um amigo. Alguém que, sei, a vida pode até levar por caminhos distantes, mas que nunca será apenas um figurante em uma fotografia velha.
Alguém que me traz lembranças boas e me faz sentir saudade de tempos que já passaram, mas que continua presente, mesmo quando a distância física se torna enorme. Que não me entende o tempo todo, porque em muitos momentos eu sou mesmo incompreensível, e que não concorda sempre comigo, afinal eu erro.
Alguém que acompanha inícios e fins de rolos, namoros e casamentos. Que vibra com meus sucessos e que lamenta minhas derrotas sem, no entanto, me deixar desanimar. Que me ajuda a ver a vida com bons olhos e, sobretudo, que espera tudo isso de mim também. Fácil? Não. Eu mesma tenho poucos, mas é o que recebo deles que me permite ser romântica e acreditar no amor.

No vento

Venta um vento quente.
Vêm, no ar em movimento,
as lembranças.
Voam as emoções e
na poeira que levanta,
escondem-se os pensamentos.
Com as folhas caem a saudade,
que logo se vai,
empurrada pelas mudanças
que também o vento traz.

Dias especiais

Recebi um presente. Um fim de semana com o céu num tom de azul intenso, o mar límpido e numa temperatura agradavelmente fria e a vegetação verde confirmando que o outono por aqui é especial. Como moldura, as sinuosas montanhas, como companhia, as pessoas que fazem o significado da palavra amizade, mais que ser entendido, ser sentido. Com os termômetros marcando 30°, foram dias de praia e noites de mini saia e salto alto.

Assim, a vida deu seu recado. Respeitando a tristeza ela mostrou a alegria logo ali adiante; permitindo a dor, exigiu força; dando espaço para o arrependimento, deixou a certeza de ter feito o que deveria ser feito. Na seqüência das ondas, no contorno das montanhas, no ritmo da música ou no ombro dos amigos a confirmação de que se histórias acabam, é para dar espaço para outras, melhores, acontecerem. Que aconteçam!

Pensamentos de um dia triste

O dia estava triste. O sol não havia vindo energizar, tão pouco a chuva lavar. As nuvens, comprimidas no céu, não possuíam formas de bichos e nem se pareciam com grandes chumaços de algodão. Formavam, isso sim, uma massa compacta, branca e sufocante. O vento fraco que vinha do mar não tinha cheiro de mar. Não era quente e também não era frio. Inodoro e sem temperatura, só se fazia perceber porque balançava as folhas das árvores que, sob aquele céu, pareciam ter, ao invés do verde, uma melancólica coloração marrom.

Pensei em chorar, mas também as lágrimas não estavam gostando daquele dia. Tentei rir, mas não encontrei forças para isso. Entreguei-me aos pensamentos e alguém perguntou: alguém aí consegue parar de pensar? O meu não foi em forma de suspiro. O suspiro de quem sabe que pensa pensamentos tristes. Deixei-me, então, ficar triste. Até que o sol viesse energizar o corpo, a chuva lavar a alma ou o vento com cheiro de mar afastar a saudade de dias que não eram tristes.

Viração

"Voa um par de andorinhas, fazendo verão. E vem uma vontade de rasgar velhas cartas, velhos poemas, velhas contas recebidas. Vontade de mudar de camisa, por fora e por dentro... Vontade... para que esse pudor de certas palavras?... vontade de amar, simplesmente."

(Mario Quintana)

A partida

Com serenidade ele arrumou a mala. Colocou escova de dentes e sonhos, roupas e sentimentos, livros e amor. Tudo junto em uma pequena e surrada mala preta. E, puxando a sua vida sobre rodinhas já gastas, partiu. Destino incerto. Na perspectiva dele, estava indo, esperançoso, para o futuro. Na minha, embarcava rumo ao passado após um frio e discreto adeus com a mão esquerda. Restos de um antigo carinho o impediu de sorrir a felicidade que sentia, mas nem o orgulho deteve as minhas lágrimas de dor e tristeza. Chorei o futuro que já não me era possível.

As novidades

Há sempre a hora em que as novidades surgem. Sorrateiramente ou impetuosamente elas chegam e, como o calor da primavera que anuncia o verão, têm o frescor do que ainda não foi vivido, o sabor exótico do desconhecido e o odor estimulante do inédito. Elas trazem a promessa das possibilidades possíveis e, assim, mudam o curso dos acontecimentos, desviam a vida por caminhos por onde o presente se torna passado. Natural que seja assim...

É natural e seria, também, bom, se os sonhos do passado tivessem deixando o gosto doce de boas lembranças e não o amargo sentimento de perda. Seria muito bom, se os sentimentos, antes vividos juntos, tivessem, ao mesmo tempo, sido amenizados e esquecidos com a mesma suavidade com que as folhas de outono caem sobre as calçadas. Mas o que se anuncia é um inverno de lembranças frias e sem esperança.

Dias de lágrimas

São dias de lágrimas na face. Gotas salgadas no rosto triste e aridez no coração descompassado. Confusão interna, inércia externa e dúvidas, muitas dúvidas. Contradições questionadas nas mesmas perguntas sem respostas. Sentimentos desencontrados, de si e dos outros. Desejos guardados dentro de um livro velho, expectativas escondidas no livro novo que ainda espera para ser lido e um livro que ainda não foi escrito. Páginas em branco molhadas pelas lágrimas de dias como esses.

Além do que não é possível

Eu vi a luz através da escuridão, enxerguei o sol por detrás das nuvens, percebi o sorriso escondido na face séria, identifiquei o brilho de um olhar camuflado por óculos escuros, encontrei alegria disfarçada em sisudez, admirei o verde no meio da aridez, acreditei no melhor quando o que estava na minha frente era o pior. Fui contra as evidências, teimei com os fatos, briguei com o óbvio, acreditei no imprevisível e apostei. Apostei alto no amor de um coração fechado para aquilo que está além e foi então que eu senti, além do que eu seria capaz de imaginar, que o amor também me sentia.

Sem querer

Não queria que fosse assim. Nunca quis que fosse assim da forma que eu deixei ser. Assim, sem querer, eu fiz a razão enfrentar a vontade, o querer sucumbir ao dever e, no curto espaço entre o antes e o depois, o para nunca triunfar sobre o para sempre. Venci a mim mesmo, sem querer, e, também sem querer, provei o sabor amargo de uma vitória que foi, na verdade, derrota. A possibilidade impossível de não querer o querer. Sem querer que assim fosse, deixei ser. E foi. Se foi.
"A tarde estava errada,
não era dali, era de outro domingo,
quando ainda não tinhas acontecido,
e apenas eras uma memória parada
sonhando (no meu sonho) comigo.

E eu, como um estranho, passava
no jardim fora de mim como alguém de quem alguém se lembrava
vagamente (talvez tu),
num tempo alheio e impresente.

Tudo estava no seu lugar
(o teu lugar), excepto a tua existência,
que te aguardava ainda, no limiar
de uma súbita ausência,
principalmente de sentido."

(Manuel António Pina)