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Mostrando postagens de Julho, 2005

Cansada

Estou cansada. Cansada de carinhos leves e breves. Ainda mais cansada das agressões, inesperadas e gratuitas. A instabilidade de seus sentimentos tem me feito instável. Mais instável do que posso, e quero, suportar. Por isso estou cansada. Cansada de abraços mornos e beijos requentados. Risos irônicos? Frases irônicas? Olhares irônicos? Cansei da ironia. Cansei. Cansei dos lindos reencontros antecederem sucessivas rupturas. Cansei de me separar de mim para me juntar a você e não conseguir. E não desistir, insistir e me cansar. Cansei da não correspondência de momentos, de carinho, de respeito, de amor. Cansei desse amor de carências dessincronizadas. Interesses paralelos que não se encontram. Cansei. Sentimentos perpendiculares que atraem para repelir. Cansei. Cansei de desejos efêmeros, em tempos e intensidade diferentes. Cansei das mensagens sem respostas. Cansei das minhas ligações serem encaminhadas para a caixa de mensagens e estarem sujeitas à cobrança após o sinal. O sinal. Can…

Viagem ao presente

As luzes internas do avião se acenderam. O comissário anunciou que o pouso ocorreria em alguns minutos. Nas pequenas telas de vídeo a hora local. Atrasei meu relógio e pensei em como seria bom voltar no tempo. Um tempo que tinha muito a ver com aquela cidade que eu agora avistava, em formas de infinitos pontos de luz, da pequena janela. No início pontos, somente pontos brilhantes, mas a medida que o avião descia, meus pensamentos levantavam vôo.

Apesar da noite, consegui identificar as ruas largas e movimentadas, as casas, os prédios. Quando meus pensamentos chegaram a uma atitude segura para a imaginação, tentei descobrir quais ruas já teriam sido, um dia, parte de seu caminho. Parte da sua história teria sido vivida em uma casa espaçosa ou em um apartamento de um daqueles modernos edifícios? Estaria eu sobrevoando o seu lugar? Haveria um lugar que pudesse ser chamado de seu?

As turbulências da saudade me trouxeram de volta de uma viagem a um tempo imaginário, de um passeio a um passad…

Tempestade

Após longos dias de chuva a estiagem inesperada parecia um indício de dias melhores. As calçadas secavam sem pressa e o sol ensaiava uma tímida reaparição. Mas não pude ver o tempo que melhorava lá fora, o vento do inesperado havia trazido a tempestade para dentro de minha alma. A água estava agora em meus olhos. Não consegui segurá-la, chovia em meu coração.

Amanhecer-se

Acordou no meio da noite e teve a sensação de que a cama havia crescido. Não diziam a ela que nós, pessoas, crescíamos durante o sono? Poderiam as camas, muito bem ,pegar carona nesse crescimento e aumentarem, também elas de tamanho. Com os pensamentos ainda anestesiados pela seqüência de fenômenos psíquicos que involuntariamente ocorrem durante o sono, estendeu a mão para o lado para tocar alguém que não existia. Um sonho. Havia tido um sonho. Sabia, mas não lembrava. Tinha apenas uma sensação de vazio que se entremeava com um ímpeto de ir em busca de... De que afinal?

Tentando responder a esta pergunta, perdeu o sono. Tentou recuperá-lo, mas a cama inesperadamente crescida a incomodou. Levantou-se mas só se percebeu de pé quando já estava diante do espelho. Olhava para um rosto que conhecia, mas não reconhecia como seu. As rugas estavam mais profundas e não eram apenas reflexos de uma longa e descuidada exposição ao sol, tão pouco eram sinais da passagem do tempo. Eram, o espelho mos…

Passando de novo pelo coração

Era para ser só uma ida ao centro da cidade. Era para ser, e foi, mas não foi só.

A tarde estava agradável. Acima dos altos prédios da grande avenida o céu estava azul e pelas frestas que as ruas secundárias abrem entre o concreto vertical, o sol vinha, junto com o vento, ao meu encontro. O vento suavemente tocou a minha pele. Não estava nem frio nem quente, nem forte nem fraco, nem vinha da direita e nem da esquerda, mas me levou.

Segui por ruas que não eram o caminho a seguir e a cada passo que dava, as pessoas se transformavam em uma massa disforme que movimentava-se em ritmo frenético. Corriam em direções possíveis e impossíveis, vindo e indo de lugares que não eram meus. Eu não corria, apenas seguia. Seguia e pensava. Seguia, pensava e lembrei da frase que ouvi em uma peça de teatro: recordar é passar de novo pelo coração.

Compreendi que o vento me conduzia pelas ruas de minha memória. Compreendendo minha compreensão ele, o vento, soprou mais forte. Me detive e olhei para os lados e…