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Passando de novo pelo coração

Era para ser só uma ida ao centro da cidade. Era para ser, e foi, mas não foi só.

A tarde estava agradável. Acima dos altos prédios da grande avenida o céu estava azul e pelas frestas que as ruas secundárias abrem entre o concreto vertical, o sol vinha, junto com o vento, ao meu encontro. O vento suavemente tocou a minha pele. Não estava nem frio nem quente, nem forte nem fraco, nem vinha da direita e nem da esquerda, mas me levou.

Segui por ruas que não eram o caminho a seguir e a cada passo que dava, as pessoas se transformavam em uma massa disforme que movimentava-se em ritmo frenético. Corriam em direções possíveis e impossíveis, vindo e indo de lugares que não eram meus. Eu não corria, apenas seguia. Seguia e pensava. Seguia, pensava e lembrei da frase que ouvi em uma peça de teatro: recordar é passar de novo pelo coração.

Compreendi que o vento me conduzia pelas ruas de minha memória. Compreendendo minha compreensão ele, o vento, soprou mais forte. Me detive e olhei para os lados e para o alto. O contraste entre os lindos prédios antigos e os modernos de gosto duvidoso me fizeram recordar. Fechei os olhos e senti as suas mãos firmes nas minhas costas, a sua respiração compassada com a minha e o seu lábio em conjunção com o meu. Passou de novo pelo meu coração o seu e, por breves segundos, ele voltou a ser meu.

Era para ser só uma esquina. Era, mas não era só. Era a esquina que passava pelo meu coração.

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