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Mostrando postagens de Setembro, 2005

Palavras suas

Sua falta... Não! Não vou completar a frase. Não vou repetir palavras que são suas, frases que lembro tão bem, que saem de minha boca e de minhas mãos como se fossem minhas. Não são minhas, nunca foram. Foram, talvez, um dia, ditas e escritas para mim. Foram... Se foram e vou deixar ir com elas, a forma de lê-las com esse sentimento meu que se perdeu do seu. Perderam-se no tempo e nem eu os encontro mais. Sem eles, vou ver suas palavras apenas como uma sucessão de letras. Como os momentos que não se repetem, não vou repeti-las para não ter a tentação de ouvi-las como se estivessem sendo ditas por você. Sem a sua presença tão ausente, vou deixar de fotografar lugares para lhe mostrar e não vou mais sublinhar frases de livros que parecem ter sido escritas para você. Não vou esquecê-lo, mas vou lembrá-lo apenas nas palavras que não vou mais repetir. Com uma única exceção: saudade.

Cheiro de passado

É incrível como os cheiros são capazes de estimular a lembrança, despertar emoções e reavivar sentimentos. Talvez seja uma espécie de comunicação, direta e eficiente, entre olfato e memória. Através dela o passado vem, nas situações mais inusitadas, nos visitar. Hoje, quando abri o vidro de shampoo, ele veio. Sob o chuveiro lembrei de dias longos de um verão que passou rápido e deixou saudades. Saudade do mar, curando ressacas e despertando o corpo para dias de sol. Saudade do sol a preparar o corpo e a alma para fins de tarde de encontros e reencontros com os amigos. Saudade de momentos bons e muita saudade de pessoas mais que queridas. Saudade de dias que foram, como muito bem definiu uma dessas pessoas, "de lindos reencontros e deliciosas gargalhadas".

Sentimentos

Em dia de chuva o cachecol está enrolado no pescoço para ver se a voz volta. Aos poucos ela vai voltando mas pra falar o que? Por hora, não há muito o que falar. Mas há os pensamentos. Esses, nenhuma virose é capaz de deter. Ao contrário, o ritmo mais lento ditado por um corpo febril os estimula, assim como também é estímulo a árvore que cai, fechando a rua por onde devo passar e me prendendo em um engarrafamento imprevisto. Como prever o trânsito das ruas se não consigo sequer fazer prognósticos de sentimentos que vem, vão e, algumas vezes, param em local impróprio? Irônica a vida. Alguém liga falando em vontades, em um reencontro que já não encontra sentido nas vontades de agora. Mas as vontades de agora também não estão aqui. Estão lá onde não deveriam mais estar, obstruídas pela saudade. Logo ali, do outro lado da saudade, está a possibilidade real, mas como não consigo chegar lá, mando apenas algumas mensagens de celular.
"Quantas vezes, amor, te amei sem ver-te e talvez sem lembrança,
sem reconhecer teu olhar, sem fitar-te, centaura,
em regiões contrárias, num meio dia queimante:
era só o aroma dos cereais que amo.
Talvez te vi, te supus ao passar levantando uma taça em Angola, à luz da lua de junho,
ou eras tu a cintura daquela guitarra
que toquei nas trevas e ressoou como o mar desmedido.
Te amei sem que eu soubesse, e busquei tua memória.
Nas casas vazias entrei com lanterna a roubar teu retrato.
Mas eu já sabia como eras. De repente
enquanto ias comigo te toquei e se deteve minha vida:
diante dos meus olhos estavas, regendo-me, e reinas.
Como fogueira nos bosques, o fogo é o teu reino."

(Pablo Neruda)

Esquecimento

"Este ruído das nascentes ao longo dos meus dias. Correm em volta de mim, através dos prados ensoalhados, depois mais perto de mim ainda e em breve terei este ruído dentro de mim, esta nascente no coração e este ruído de fonte acompanhará todos os meus pensamentos. É o esquecimento."

(Albert Camus)

Mundo

"E eis que naquele dia a folhinha marcava uma data em caracteres desconhecidos,
Uma data ilegível e maravilhosa.
Quem viria bater a minha porta?
Ai, agora era um outro dançar, outros os sonhos e incertezas,
Outro amar sob estranhos zodíacos...
Outro...
E o terror de construir mitologias novas!"

(Mario Quintana)

Depois da chuva

O sol voltou, a temperatura subiu, a primavera se aproxima e no rádio escuto: "a pequena chance de o impossível rolar". O A se transforma em HÁ e eu penso que sempre há a possibilidade do impossível perder o prefixo, essas duas letras que, juntas e antes de um possibilidade, nos dizem: não, não pode ser. O que dizer então do que não é assim tão impossível? Possível. São muitas as chances e elas se anunciam nesse recomeçar que começa agora e a cada dia, todos os dias. E vou começar esquecendo, nos últimos dias de inverno, tudo aquilo que não pode, por tempo indeterminado, ser. Quero tentar apenas as impossibilidades viáveis ou aquelas que valem, ao menos, a aventura da tentativa. Quero fazê-las possíveis para vivê-las com as cores e sabores de manhãs ensolaradas que brilham após dias de muita chuva.

Você

O céu claro indicava que seria um vôo tranqüilo. Como criança deslumbrada em seu primeiro vôo fiz questão da janelinha e pelo vidro embaçado me diverti tentando reconhecer ruas, prédios, bairros. As praias eram o mais fácil de se reconhecer, uma ia sucedendo a outra até o momento que a faixa de terra se tornou mínima e logo foi envolvida pelo intenso azul do mar. Um azul que me lembrou você. Quantas vezes nos sentimos, e estivemos, juntos quando existia entre nós todo um oceano? E foi justamente em uma vez que estávamos, de fato, juntos que nos separamos. Dez centímetros de cama multiplicaram-se por anos luz e a nossa viagem terminou. Foi curta a nossa viagem. Por demais curta... Ou talvez, tenha sido longa para a intensidade com que a vivemos. Relembro-a e ao relembrá-la, sinto-me acalentada por você. Seus braços firmes ao meu redor, sua voz pausada e firme ao meu ouvido e seus lábios doces a brincar com os meus. Sorrio mesmo sabendo que já não é meu o seu amor, que já não sou eu a …