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Mostrando postagens de Outubro, 2005

Chuva de lágrimas

A primeira desceu, devagar e solitária, abrindo caminho para mais duas. Depois delas vieram outras, muitas outras que, à medida que se multiplicavam, aceleravam o ritmo de decida. Logo já não era possível identificá-las separadamente, formavam uma cortina disforme e molhada que embaralhava a visão e tornava impossível ver adiante. O dia, então, converteu-se em noite. E já não era possível definir se os pontos de brilho tênue perdidos na escuridão eram gotas de chuva escorrendo pela janela ou lágrimas deslizando pela face triste. Estrelas não eram, porque estas se ocultam nas despedidas.

Tarde

Ventava um vento insistente, insípido e insolente. Ao sol, faltava vontade de aparecer, à chuva, determinação para cair. Uma tarde vazia em que o sorriso não se refazia e as lágrimas secas não se deixavam ver, apenas sentir. E ela sentia a opressão de estar perdida no vácuo de um fim infindável. Era preciso dizer adeus, ela sabia. Escreveu em um pedaço de papel, com o lápis mais claro que encontrou: I need to say goodbye. Em inglês, a frase era apenas isso, uma frase. Subterfúgio para distanciar a razão da emoção, o plano da ação. Com traços timidamente finos, ela confessava, em letras, que, embora soubesse que era preciso, não queria dizer adeus. Sob as tediosas nuvens brancas daquela tarde, ela esperou, uma vez mais, que o telefone tocasse. Mas a noite veio sem que o sol aparecesse, a chuva caísse ou o telefone tocasse. Só as lágrimas se deixaram ver, molhadas pela angústia de tardes perdidas em uma espera inútil.

Madrugadas de um verão

Acordou agitada. O suor que surgia na testa descia contornando, sem pressa, o rosto para, em seguida, desviar abruptamente, ora para as costas, ora em direção ao colo, deixado à mostra pelo despretensioso decote da fina camiseta. Fazia calor e o ventilador girando no teto não amenizava o desconforto do corpo aquecido.

Sem sair da cama, puxou a cortina para que através da janela sobre sua cabeça entrasse o inconfundível ar da madrugada. Quem entrou foi a lua cheia de verão, que refletida nas paredes brancas, despertou memórias de um verão que parecia ter sido único.

É certo que haviam e haveriam outros verões, mas ali, sob o vento artificial que caía do teto e a luz que derramava-se do céu, ela lembrava apenas das madrugadas passadas abraçada àquele corpo que parecia extensão do seu. Sentiu novamente os aromas e ouviu o ritmo acelerado das respirações de dois corpos em conjunção. Entregue a memória, reviveu um amor de noites quentes de verão.

Na névoa cor de laranja

Havia sido um dia cansativo e eu estava voltando para casa exausta, dirigindo quase que por instinto. A cabeça parecia estar nas nuvens, mas na verdade as nuvens que estavam bem perto de minha cabeça. Era uma névoa atípica para aquela época do ano, entre a primavera e o verão, quando a temperatura sobe e os dias quentes são sucedidos por noites claras. Era atípica, mas estava ali, no meu caminho.

Sob as luzes amarelas da estrada a neblina adquiria uma tonalidade alaranjada que era, ao mesmo tempo, suave e intensa. Uma atmosfera envolvente que me trouxe alegria. Diminui a velocidade para observar com mais atenção, mas era pouco o que eu conseguia ver.

Nas margens, era possível identificar apenas as árvores mais próximas, silhuetas de formas e cores variadas. Com a indefinição climática tão característica da cidade, era possível identificar árvores de primavera, com flores aquareladas pela névoa; árvores de outono, com seus galhos nus; árvores de verão, que dançavam vagarosamente no rit…

O amor acaba

“O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinza o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mão soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se faltasse energia; no andar diferente da irmã den…

Palavras

Palavras. Flanando no ar, derramando-se sobre a realidade ou atidaras na direção dos sentimentos, são apenas palavras. Letras seguidas de outras letras, formando seqüências que podem acariciar e também ferir. Estimular e reprimir. Começar e encerrar. Sorrisos e lágrimas em frases com sentidos inexistentes ou que se escondem na névoa das emoções. Sons de sim e de não. Talvez. Verdades e mentiras. Incertezas ditas, proferidas, sussurradas ou gritadas para, logo em seguida, o silêncio. Cessam as palavras que estimulam os sentimentos, cessam também as palavras que os transformam em impossibilidade. Se desfaz o sorriso e secam as lágrimas. Fica então a ausência, o vazio, a saudade, o silêncio. Silêncio! Palavras, são só palavras.

Nel mezzo del camim...

"Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E alma de sonhos povoada eu tinha...


E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.


Hoje segues de novo... Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.


E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo."

(Olavo Bilac)

Doce certeza

"Por essa vida fora hás de adorar
Lindas mulheres, talvez; em ânsia louca,
Em infinito anseio hás de beijar
Estrelas d’oiro fulgindo em muita boca!

Hás de guardar em cofre perfumado
Cabelos d’ouro e risos de mulher,
Muito beijo d’amor apaixonado;
E não te lembrarás de mim sequer!...

Hás de tecer uns sonhos delicados...
Hão de por muitos olhos magoados,
Os teus olhos de luz andar imersos!...

Mas nunca encontrarás p’la vida fora,
Amor assim como este amor que chora
Neste beijo d’amor que são meus versos!"

(Florbela Espanca)

Você

Procurei
em olhos azuis
o castanho dos seus.
Eles brilhavam,
mas não consegui ver,
refletido neles,
o brilho dos meus.
Procurei em pele clara
o bronzeado seu.
Havia sabor
na suavidade da cor,
mas não senti nela
o calor de minha pele.
Procurei em alguém você
e o encontrei ainda em mim.