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Mostrando postagens de Novembro, 2005
Para as lagartas o amadurecimento vem com as asas que as transformam em borboletas. Com eles deu-se o contrário. Perderam as asas da ilusão e agora caminham no solo da realidade.

Longe demais

Acostumara-se com o sinuoso contorno das montanhas recortando o céu, mas agora eram as duras linhas retas dos edifícios que rasgavam o infinito. Olhava para cima buscando o azul intenso, mas entre o concreto só conseguia ver uma cor tão indefinida quanto sombria.

No rosto, óculos escuros que ainda traziam os sinais do contato direto e prolongado com a areia e a maresia. Sob as lentes escuras, olhos aflitos tentavam compreender aquele lugar. Diante de tanta estranheza, se reconheceu ele como o estranho.

Pelas formas, cores, emoções e sentimentos que haviam ficado para trás, os olhos claros apagaram-se em um fundo vermelho. Ficaram úmidos, mas sequer uma lágrima desceu. O choro estava oprimido pela nostalgia do que estava deixando de ser vivido distante dali.

Por não saber deixar de amar

O vento do descompromisso já não acaricia o rosto e a liberdade agora tem gosto de solidão. A vida desgarrada já não encanta, mas aborrece a insistência dos amigos por um novo amor. A idéia não é ruim, mas falam como se o amor fosse algo decidido, escolhido, planejado. Mas o amor, sabem os que já amaram, simplesmente acontece. Algumas vezes com tal intensidade, que não consegue desacontecer.

Persiste e amar passa a ser um verbo conjugado por um eu sozinho, que ama além da distância e apesar da impossibilidade de voltar a ser correspondido. Ama com a leveza dos que sabem amar e a angústia dos que não sabem desamar. Entre histórias vazias e emoções forçadas, ama por não saber deixar de amar.

A ventania

"Assovia o vento dentro de mim. Estou despido. Dono de nada, dono de ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a contravento, e sou o vento que bate em minha cara."

(O Livro dos Abraços - Eduardo Galeano)

Saudade

Visitar alguns lugares é como fazer uma viagem, pessoal ou histórica, no tempo. Naquela construção antiga as viagens foram dos dois tipos. A história do Brasil e a minha impregnadas na fachada branca, no assoalho de madeira e nas pedras do pátio interno. Sentei-me na mesma mesa do mesmo bistrô, fiz o mesmo pedido e fiquei passeando pelo tempo passado até que as lembranças começaram a perder o sabor doce. Antes de sentir o gosto amargo de lamentar o que já se foi, resolvi ir. Fui ver uma exposição sobre a obra de Dorival Caymmi. Entre 80 composições dele, a primeira que vi, ouvi e senti foi Saudade.


Saudade

"Tudo acontece na vida Tudo acontece a todos nós Sempre uma dor, um ai de amor E de um infeliz se ouve a voz, ai... Sinto saudades, tristezas, Bem dentro de mim, Coisas passadas, já mortas Que tiveram fim Tenho olhos parados Perdidos, distantes, Como se a vida me fora O que era antes Cartas, palavras, notícias, Não vem sequer, E a certeza me diz Que ela era meu bem. O que dói profundamente
É sab…

Onde a cultura é a melhor diversão

Produção impecável e elenco competente fazem de O Fantasma da Ópera um espetáculo que, verdadeiramente, merece este adjetivo. O texto que já ocupou palcos famosos do mundo e fez sucesso no cinema, ganhou uma versão brasileira que não pode ser classifica como erudita, mas tão pouco é um musical, no sentido mais popular do gênero. Efeitos especiais dignos do cinema se integram a um figurino luxuoso e requintado. Cantores líricos e bailarinos clássicos conseguem se aproximar o público com desenvoltura de artistas populares. O resultado: sucesso.

Mas, para mim, mais surpreendente que o espetáculo, foi o público. Difícil estimar, mesmo que aproximadamente, a quantidade de pessoas presentes no Teatro Abril, em São Paulo, mas eram muitas. O teatro estava cheio, quem conhece sabe o que isso significa, apesar da fria noite de quinta-feira e, sobretudo, apesar dos valores dos ingressos, entre R$65 e R$200. É verdade que o poder aquisitivo na capital paulistana está entre os maiores do país, mas,…