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Presença

Por causa de uma única e pouco importante reunião ela precisou viajar cerca de 400 quilômetros. Sobre as nuvens, isso não significou mais do que algumas dezenas de minutos apreciando os detalhes do litoral que o céu sem nuvens deixara revelarem-se. A mudança brusca no cenário externo, que de azul converteu-se em cinza, indicou que o desembarque estava próximo. Um desembarque com sintomas de nostalgia e uma leve sensação de reencontro. Mas o que ela poderia reencontrar em uma cidade que pouco conhecia?

Saiu do aeroporto e sentiu, quase que instantaneamente, a presença dele. Ligeiramente perturbada entrou no táxi. Pela janela do carro, olhava para esquinas em que nunca havia passado, mas era como se o reconhecesse nelas. Inclinando ligeiramente a cabeça para fora, observava o topo dos prédios mais altos e era como se percebesse olhares dele sendo lançados de lá. Via as pessoas caminhando apressadas em sentidos contrários e era como se ouvisse os passos firmes dele no mesmo sentido dos seus.

Ele estava em cada um dos muitos metros de concreto e também em cada folha das escassas árvores que emolduravam o caminho. Estava até no ar quente e poluído da metrópole, que tocava o seu rosto com a mesma intensidade parcial determinada pelo receio dele em se entregar por completo. Entregue estava ela, a memórias que uniam o passado conhecido ao presente desconhecido, que combinavam lembranças e especulações. A perturbação, inicialmente ligeira, intensificou-se e só cessou, parcialmente, quanto ela já estava na ante-sala de reuniões.

A reunião transcorreu de forma previsível e rápida, o que fez com que fossem poucas as horas passadas naquela cidade. Estranhamente, era como se ele estivesse estado por perto todo o tempo. Sentou-se em uma das cadeiras da sala de embarque e cada vez que a porta automática se abria imaginava vê-lo entrar. Cansada e sem compreender sensações tão inesperadas e inexplicáveis, entregou-se à leitura. De tal forma, que quando embarcou de volta a lembrança dele havia se dissipado. Voltou agora, na surpresa da notícia de ele havia mudado de cidade. Já estava lá quando ela o sentiu.

Comentários

Maira disse…
Estou tentando comentar ha um tempo. e so hj consegui!Finalmente!
Esse texto eh pefeito. Traduziu uma coisa que sempre senti, mas que nunca consegui colocar no papel. E ja tive exatamente a MESMA experiencia. So posso dizer: nossa intuicao eh foda e somos sensiveis pra caralho!
Bjao.