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Mostrando postagens de Março, 2006

Porque eu nasci no Rio

Carioca na certidão de nascimento, na história pessoal e na personalidade, adorei o texto de Ricardo Kotscho que encontrei no site No Mínimo. O momento não poderia ser melhor para ler a declaração de amor que alguém de fora fez à cidade com a qual tanto me identifico. Nesta semana escrevi em um e-mail: o Rio sempre será a minha cidade, aqui a história é outra e me interessa muito mais. O tal e-mail teve uma resposta com a cara do outro lado da ponte aérea, esqueço-a para celebrar esse jeito carioca de ser.

O texto, na íntegra, para cariocas nascidos ou não no Rio!


Por que não nasci no Rio?

"Ninguém escolhe o lugar onde nasce. Vim pensando nisso no avião que me trouxe ao Rio esta semana, depois de passar um ano quase todo trabalhando em casa. Tem muita gente que embarca em São Paulo na ponte-aérea com a naturalidade de quem sobe num táxi. Mas para mim vir ao Rio virou um acontecimento – cada vez mais agradável, diga-se.

Já começou pelo piloto da Gol que, ao anunciar a decolagem, foi l…

Voltando a voar

Hoje o dia amanheceu claro. Com o ar leve e a forte sensação de recomeço escolhi o azul quase violeta para ser a cor de meu vestido. Clara como o dia, leve como o ar e acreditando que estava recomeçando apenas um novo dia, observei com atenção as borboletas que compartilhavam o caminho comigo. Elas pareciam dançar ao som de Mozart que eu escutava. Sorri, sem motivo mas com a alma, e segui me sentindo livre como os simbólicos e encantadores seres de asas. Eu mesma estava encantada, talvez pressentindo que aquele era o início de um dia que não seria como os outros. No meio do dia, através de inesperadas palavras escritas, descobri que o que recomeçava era eu. A dor e o sofrimento da longa metamorfose estavam, agora, representados por asas. As minhas asas! Com elas voltei a voar.

O verão que foi

O verão acabou ontem, numa tarde típica de céu azul, nuvens se formando sobre as montanhas e temperatura alta. De signo de sol, o verão sempre foi a minha estação. O calor na pele, os pés na areia, o mar acordando o corpo e despertando a alma. Tudo isso sob o intenso das infinitas cores existentes entre o amarelo e o vermelho, sob a força do laranja, que é sua mais próxima tradução. Ainda resistem as cores e ainda persiste o calor, mas o verão passou sem me deixar saudade.

O clima é de retrospectiva. Encerra-se a temporada que melhor representa a capital-balneário e o momento é de lembrar. A revista lembra das gigogas, plantas símbolo da poluição, elas tiraram o brilho de alguns dias da estação. No jornal, o colunista lembra do Coqueirão, classificado como o metro quadrado mais tatuado da cidade, ele virou point em Ipanema.

Alguém lembra o show dos Stones em Copacabana e, assim como aconteceu na cronologia do verão, em seguida a memória traz de volta o carnaval. O saudosismo dos foliões…
"De luas, desatino e aguaceiro
Todas as noites que não foram tuas.
Amigos e meninos de ternura


Intocado meu rosto-pensamento
Intocado meu corpo e tão mais triste
Sempre à procura do teu corpo exato.


Livra-me de ti. Que eu reconstrua
Meus pequenos amores. A ciência
De me deixar amar
Sem amargura. E que me dêem


A enorme incoerência
De desamar, amando. E te lembrando


- Fazedor de desgosto -
Que eu te esqueça."


(Hilda Hilst)

Céu de inverno

Era verão, mas fui acordada por uma chuva batendo firme na janela. Levantei-me e quando olhei para cima, o céu de inverno me lembrou você. Totalmente branco, ele me mandava aquela chuva inesperada que caía como lágrimas aliviando um intenso sentir. Eu senti e continuei sentindo quando a chuva cessou. Já era tarde quando veio o vento. Ele conseguiu abrir espaço entre as nuvens e o sorriso em meu rosto. Através das janelas azuis que se abriram entre brancas e leves nuvens eu pude ver a luz do sol. Espiei por cada uma das janelas e surgiram, nos olhos o brilho e na pele o arrepio da lembrança de você. Abraçada a elas e por elas abraçada, vi o vento perder força, as janelas se fecharem e as nuvens se multiplicarem. Com o cair da noite, fez-se cinza aquele céu de inverno e as gotas que dele se desprenderam trouxeram, então, a melancolia de uma saudade para sempre.

Deixa-me seguir para o mar

"Tenta esquecer-me... Ser lembrado é como
evocar-se um fantasma... Deixa-me ser
o que sou, o que sempre fui, um rio que vai fluindo...


Em vão, em minhas margens cantarão as horas,
me recamarei de estrelas como um manto real,
me bordarei de nuvens e de asas,
às vezes virão em mim as crianças banhar-se...


Um espelho não guarda as coisas refletidas!
E o meu destino é seguir... é seguir para o Mar,
as imagens perdendo no caminho...
Deixa-me fluir, passar, cantar...


toda a tristeza dos rios
é não poderem parar!"


(Mario Quintana)

Com licença poética

"Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo.
Cumpro a sina.I
nauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável.
Eu sou."

(Adélia Prado)

Um carnaval que passou

Domingo, nove horas da manhã. Nem mesmo o dia nublado e abafado manteve as pessoas até mais tarde na cama. Sob um mormaço de mais de 30°, milhares delas saíram de casa cedo para fechar, em grande estilo, o carnaval deste ano. Eram bebês e crianças, jovens e velhos, e até cachorros. Cariocas do Rio e de outras cidades do Brasil e do mundo que acompanharam com disposição e animação o Monobloco pela orla do Leblon e de Ipanema.
Sucesso já consagrado na cidade, o bloco nasceu e cresceu simultaneamente à revitalização do carnaval de rua no Rio de Janeiro, confirmando o que o que outros blocos já tinham mostrado, que é na rua que a festa acontece. Democrática, irreverente, alegre e, dentro das limitações impostas pelo consumo de álcool e pela grande concentração de pessoas, pacífica. Uma festa carioca. Nas bucólicas ladeiras de Santa Teresa, no histórico e no moderno centro da cidade ou na orla de cartão-postal da Zona Sul o povo colocou os seus muitos blocos na rua.
Em um carnaval que, par…