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Um carnaval que passou

Domingo, nove horas da manhã. Nem mesmo o dia nublado e abafado manteve as pessoas até mais tarde na cama. Sob um mormaço de mais de 30°, milhares delas saíram de casa cedo para fechar, em grande estilo, o carnaval deste ano. Eram bebês e crianças, jovens e velhos, e até cachorros. Cariocas do Rio e de outras cidades do Brasil e do mundo que acompanharam com disposição e animação o Monobloco pela orla do Leblon e de Ipanema.

Sucesso já consagrado na cidade, o bloco nasceu e cresceu simultaneamente à revitalização do carnaval de rua no Rio de Janeiro, confirmando o que o que outros blocos já tinham mostrado, que é na rua que a festa acontece. Democrática, irreverente, alegre e, dentro das limitações impostas pelo consumo de álcool e pela grande concentração de pessoas, pacífica. Uma festa carioca. Nas bucólicas ladeiras de Santa Teresa, no histórico e no moderno centro da cidade ou na orla de cartão-postal da Zona Sul o povo colocou os seus muitos blocos na rua.

Em um carnaval que, para mim, começou com inesperadas aparições, fantasmas cruzaram o meu caminho sobre os trilhos do bonde de Santa Teresa, os destaques foram os blocos que trouxeram de volta as antigas marchinhas. Saudosismo e nostalgia pessoais que ganharam forma nos desfiles do Céu na Terra e na inesquecível apresentação que o Cordão do Boitatá fez na histórica Praça VX.

Memórias passadas e memórias sendo formadas ao som de inesquecíveis músicas de carnaval. Sem a dupla short/top, os foliões de hoje lembraram os carnavais do passado e vestiram fantasias criativas e coloridas. Com confete e serpentina eles souberam colocar em prática a antiga expressão: brincar o carnaval. Foi lindo ver o centro histórico tomado por gente bonita, alegre e brincalhona. Mascarada e adornada por plumas, me juntei a essa gente.

Se não teria como ser o melhor, este também não haveria de ser o pior dos carnavais. Tive certeza disso ontem, quando com a pela escurecida e o cabelo clareado pelo sol da semana, me juntei novamente à multidão, cantando, pulando, sambando e enfrentando o calor com litros de água. Um dos fantasmas até voltou a aparecer. Não era dos piores e ainda confirmou, sem sustos ou sobressaltos que, assim como os blocos passam, passam os carnavais, as histórias e as pessoas. Ficam as lembranças e a saudade. Histórias deste e de tantos outros carnavais, tão bem traduzidas na marchinha Máscara Negra, de Zé Kéti e Pereira Matos.
Máscara Negra
"Tanto riso, oh quanta alegria
Mais de mil palhaços no salão
Arlequim está chorando pelo amor da Colombina
No meio da multidão
Foi bom te ver outra vez
Tá fazendo um ano
Foi no carnaval que passou
Eu sou aquele pierrô
Que te abraçou
Que te beijou, meu amor
A mesma máscara negra
Que esconde o teu rosto
Eu quero matar a saudade
Vou beijar-te agora
Não me leve a mal
Hoje é carnaval"

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