Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Abril, 2006

Apaixonar-me

Quero sentir prender por alguns segundos a minha respiração. Aproveitar a brevidade interminável dos segundos que antecedem a realização dos desejos que desejo. Reconhecer verbalizadas as palavras que preciso ouvir e acontecidos os encontros em que eu gostaria de estar presente. Estou com vontade de, num tom que é pouco de euforia, timidez e emoção, responder a um esperado alô. Vontade de sentir as minhas pernas tremendo e o coração acelerado diante de possibilidades iminentes. Meu rosto quer sorrir o sorriso surpreso diante de uma declaração de carinho no meio da tarde e minha mão quer outra mão junto a ela quando eu mergulhar de olhos fechados nas páginas brancas de uma nova história.

No mar e no ar

Foi um dia de mar de cor envolvente. Ondas com tamanho, velocidade e força para afastar a inércia sem, no entanto, causar sobressaltos. Vento constante acariciando e arrepiando a pele dourada pelo sol soberano no céu azul de outono. No primeiro mergulho senti o sal limpando as feridas. Passada a primeira onda, senti o sopro do vento amenizando dores e ardências. Envolta pelo movimento e pelas cores do mar e do ar, fiz minha reverência a Iansã e Iemanjá. Poderosas e belas forças renovando com suavidade meu corpo, mente e alma.

O que pode vir a ser

Já disse e, felizmente, posso repetir: não sinto ódio ou raiva. Mágoas são, em alguns momentos, companhias inevitáveis. Mas dissipam-se no ritmo variável do tempo que deixa as sombras esquecidas pelo caminho e conserva apenas aquelas lembranças capazes de fazer sorrir diante de uma paisagem já vista, de uma música já ouvida, de um aroma já sentido, de um sabor já experimentado ou de um vento que toca com o mesmo carinho a face um dia alegre. Em alguns momentos sinto tristeza. Mas também ela e as dores são suprimidas pelas possibilidades apresentadas por um coração que, uma vez mais, abre-se para a emoção de novas paixões e novos amores. Entre o bom e o ruim, fico com a permanente opção de recomeçar.

Algumas das coisas que fazem a vida valer a pena

Perceber um sorrido de criança para você. Provar a fruta da estação na feira. Ganhar uma rosa na rua depois de uma discussão no trabalho. Mergulhar no mar, sentir o movimento das ondas no corpo e observar, de longe, a fúria delas em um dia de ressaca. Ver o sol nascer. Ver o sol se pôr. Buscar nele a energia que revitaliza o corpo. Chorar. Por alegria, por tristeza, por raiva e por amor. Chorar com vontade mesmo que no dia seguinte seja preciso abusar do corretivo e não se separar dos óculos escuros. Mas não esquecer de rir. Muito. Rir de si próprio, rir para as pessoas, rir para a vida. Se emocionar sempre. E se a emoção for ruim, ter alguém para lhe consolar. Nem que esse alguém seja o cachorro da família que, percebendo no seu rosto as lágrimas antes mesmo que elas caiam, de deita solidariamente sobre seus pés. Sentir sob os pés a areia, a grama, a neve, o solo de um caminho que é seu. Receber o telefonema de alguém dizendo que voltou, mesmo que você nem tivesse se dado conta de qu…
"Serei sempre o que esperou que abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha."

(Fernando Pessoa – Tabacaria)

O azul de abril

Abril começando, eu me lembrei da música que diz que são as águas de março que fecham o verão. Águas da chuva que ameniza o calor da cidade. Águas das tempestades pessoais e solitárias que atingem a todos nós, despertando-nos para outras melhores estações. Novas páginas, azuis após as lágrimas de um verão. O céu do recomeço e das infinitas possibilidades de ser feliz. Infinito é o azul, infinita é a nossa capacidade de transformação. Sinuoso e intrigante é o símbolo do infinito que nos confirma a possibilidade constante de recomeçar. Era lá, no infinito do recomeço, que estava meu sentimento quando uma mensagem de apenas duas secas linhas me fez perceber que haviam cessado as minhas águas de alguns marços. Terminava ali mais do que uma longa estação.