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Mostrando postagens de Maio, 2006
Precisava dos dois pés na areia e do mar molhando o corpo e lavando a alma. Depois de tanta chuva e frio, o sol era um presente de recomeço. Bem-vinda de volta!

Esquecer e lembrar

Tento incessantemente lembrar apenas do que foi ruim. Momentos, palavras, atitudes e até silêncios de significados cortantes. Tudo disso houve e a memória, quando peço, me sussurra. Mas parece que, diante do encantamento que ainda persiste, ela prefere, sem que eu peça, me gritar o que foi bom. Momentos sublimes de entrega, cumplicidade e afinidade. Quando procuro no passado pelas brigas, o que essa doida memória me mostra é o seu sorriso mais raro e mais sincero. Doce e verdadeiro. Se tento resgatar a frieza e o calculado distanciamento, logo vem a lembrança de suas pupilas dilatadas nos nossos encontros de corpos e de almas. Muitos e intensos. Palavras que foram agressivas parecem sucumbir à sensação de sua pele em contato com a minha. Inesquecível e inigualável toque. E quando as lágrimas vêm, e elas ainda vêm muitas vezes, não são por feridas de mágoas, mas pela dor da saudade. E assim, na busca pelo esquecimento, lembro cada vez mais de você.

Bola de cristal

"A praça, o coreto, o quiosque,
as primeiras leituras, os primeiros
versos
e aquelas paixões sem fim...
Todo um mundo submerso,
com suas vozes, seus passos, seus silêncios
- ai que saudade de mim!
Deixo-te, pobre menino, aí sozinho...
Que bom que nunca me viste
Como te estou vendo agora
- e é melhor que seja assim...
Deixo-te
com os teus sonhos de outrora, os teus livros queridos
e aquelas paixões sem fim!
E a praça... o coreto... o quiosque
onde comprava revistas...
Sonha, menino triste...
Sonha...
- só o teu sonho é que existe."


(Mario Quintana)

O que ainda não foi

A situação era confusa, as notícias desencontradas e o interesse não era mais uma exclusividade minha. Mas o meu era um interesse extremo. Acompanhava com atenção e com a ilusória sensação de que unindo todas as letras fosse possível reencontrar o seu rosto. A cada linha lida, lembrava de seus olhos e era como se sentisse novamente o seu olhar. Ao enfrentar o presente, buscava no passado as lembranças e nesse movimento da memória, a sensação era de que uma porta ainda estivesse aberta. Por ela entrava o seu cheiro inconfundível. Irresistível. Inesquecível. Queria saber-lhe bem, mas não podia procurá-lo mais. Desejava notícias, mas precisava respeitar o silêncio. Ansiava por uma aproximação, mas já estávamos distante demais para isso.

O tempo

São muitas as coisas que se dissipam com o tempo. Como as aquarelas que descoloram, as fotos que amarelam e as cores que desbotam onde quer que estejam. Na madeira dos móveis, nos tecidos das roupas, na tinta da parede, nos fios de cabelo e na memória do que um dia foi presente. São infinitas as transformações que nos trazem cada passo dado em caminhos que nos impõem crescimento, amadurecimento e envelhecimento. Seguimos por eles e sem que percebamos as dúvidas de antes já não importam mais, a insegurança converteu-se em segurança e a instabilidade lentamente transformou-se em serenidade. Muda a textura da pele, muda o contorno do corpo, mudam os sentimentos já sentidos e também os por sentir. Mudam as concepções de perene e de imperecível, se esgota a ilusão do eterno e se reafirma o sentido do infinito. São muitos os fins que o incansável movimento dos segundos, dos minutos, das horas e dos dias trazem, mas são muitos também os recomeços. São nossas as possibilidades. Se desfazem-se…

Espelho de pedra

O caminho estava úmido. Não a umidade física, deixada pela água antes de evaporar na pista por onde agora caminhava, mas a umidade das lágrimas, extravasadas ou guardadas, nas tortuosas trilhas que ligavam sentimentos seus a não sentimentos alheios. As nuvens no céu ainda encobriam também o sorriso, mas sem a insistência da chuva os passos recuperavam o ritmo e os pensamentos readquiriam leveza. Seguia por já não ser possível voltar. E sem querer parar, apenas diminuiu os passos diante da altiva e forte beleza da montanha que se mostrava para o sol. Sobre a pedra escorriam os últimos resquícios da chuva, mas os suaves raios de luz que reavivam o verde da copa das árvores indicava o fim. Entendeu isso ao se reconhecer na imagem renascida da natureza e as últimas lágrimas que chorou indicaram um fim e o seu recomeço.