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As cartas

O dia amanheceu devagar. Sol tímido e humor indefinido. A noite havia sido de sono profundo e tranqüilo. Noites cada vez mais raras que terminavam, inevitavelmente, na rotina. Recomeçava um dia que, como os outros, era mais um. Um dia que ela não estava disposta a deixar passar como de costume. Ele havia amanhecido devagar e ela queria acompanhá-lo. Sentiu vontade de escrever cartas.

Será que alguém ainda escrevia cartas? Na verdade nem elas as escrevia. Há anos não tinha mais nenhuma folha daqueles papéis que, de tão finos, tinha sonoridade própria. Envelopes eram poucos e nem mesmo a caligrafia ajudava muito, atrofiada pelo uso quase exclusivo do computador. Elas escrevia, como todos os outros, e-mails, mas naquele dia queria escrever cartas.

Cartas como aquelas que ainda tinha guardadas em pequenas caixas na parte superior do armário. Queria escrever palavras para serem colocadas por debaixo das portas de seus amigos. De seus amores. Queria fazer sentir nas mãos deles a surpresa e a curiosidade. Queria refletido no papel o brilho dos olhos deles. Precisava escrever e escreveu. No computador, mas com o sentimento e a emoção que só as cartas permitem.

Dedicou toda a manhã àquela que considerava sua melhor forma de comunicação. Quando terminou o sol já estava forte, o dia já era quase tarde e o humor havia se definido. Leveza e alegria emprestadas das palavras. Imprimiu todas elas e as guardou em uma pequena caixa. Na parte superior do armário havia também a caixa de cartas que nunca seriam enviadas.

Comentários

Maira disse…
lindo...