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Colar cor de sonho

Era uma manhã de lembranças. Para adorná-las, peguei, no fundo da caixa de bijuterias, meu primeiro presente seu. Talvez tivesse sido o único, mas esse era um detalhe que não cabia nas lembranças daquele dia. Olhava para o espelho enquanto o colocava em volta do pescoço. O que eu via era o passado. Pretérito que parecia tão perfeito, que só percebi o rompimento quando caíram as bolinhas cor de sonho. O som era ritmado e o movimento desencontrado. Quedas seguidas de pequenos quiques e um deslizar incessante que preenchia todo o chão branco. Branco como a blusa. Branco como a pele. Entre pele e blusa, o caminho de algumas delas. Escorregavam pelas minhas costas como dedos apressados em se despedir, mas hesitantes em deixar o contato com meu corpo. Impossível deter. Não tentei, esperei apenas que cessassem som e movimento. Imóvel e em silêncio, percebi o fino fio rompido sobre o chão tingido de cor de sonho. De um sonho que se foi mas ainda se faz lembrar nas bolinhas que permanecem colorindo um canto do meu quarto.

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