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Mostrando postagens de Setembro, 2006
"Tens uma máscara, amor, violenta e lívida, te olhar é adentrar-se na vertigem do nada, iremos juntos num todo lacunoso se o teu silêncio se fizer o meu, porisso falo falo, para te exorcizar, porisso trabalho com as palavras, também para me exorcizar a mim, quebram-se os duros abismos, um nascível irrompe nessa molhadura de fonemas, sílabas, um nascível de luz, ausente de angústia
melhor calar quando teu nome é paixão"


(Hilda Hilst, em A Obsena Senhora D)

Lua adversa

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha
Fases que vão e que vêm,

no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia

seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

(Cecília Meireles)

Não lembrar

O dia amanheceu deslumbrante e esplendoroso. A chuva insistente havia cessado, o frio inoportuno finalmente diminuíra e o azul do céu era, mais do que intenso, inbidor. Inibia nuvens de todas as formas e tonalidades, intimidava névoas úmidas ou secas e paralisava pensamentos sem brilho. O dia amanheceu sem que eu pensasse em você. Após tempos de cores tímidas, era o primeiro dia que abria os olhos para o céu sem lembrar de você. Mas você estava presente na ausência do pensamento. Lembrar da não lembrança era lembrar ainda mais de você. Mesmo que agora os pensamentos fossem de uma primavera por vir.