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Mostrando postagens de Outubro, 2006

Carta para não enviar

Meu... apenas, embora não somente, meu,

sim, tenho lido bastante. Respondo mesmo sem que me pergunte, porque sei que me perguntaria, talvez me perguntasse, se me escrevesse, se quisesse lembrar de mim sem a minha ajuda. Eram sobre livros as últimas frases que me enviou. Palavras que, como as poucas outras que me chegaram antes, formaram uma espécie de telegrama sem pontuação, sem letras maiúsculas e sem sentimentos, nem os mais minúsculos deles. Eu lembro, embora isso tenha sido há muito tempo, de suas escassas palavras.

Não li os livros que me indicou porque não os achei. Poderia tê-los achado se os tivesse procurado, mas faltou vontade para entrar em uma livraria que não se parecesse com um supermercado qualquer. Indicações suas são para serem buscadas em livrarias de estantes que vão até o teto, formando corredores estreitos que são como trilhas por histórias ainda não lidas e vividas. Indicações suas, são para depois, são sempre o próximo livro. Por uma lógica estranha e desconexa, …

Pequenos prazeres

Há pouco tempo comecei uma matéria escrevendo: Quem nunca ouviu dizer que menos é mais? Embora possa parecer lugar comum... As frases eram as primeiras de uma reportagem sobre decoração, mas pode ser aplicadas a outras situações e histórias. Da decoração para a vida, percebi, em um desses fins de semana, como podem ser especiais os momentos mais simples. Pequenos prazeres percebidos quando estão mais sensíveis e abertos os olhos que os vêem.

Assistir a um vídeo em companhia da mãe pode ser, como afinal deveriam ser todos os momentos, único. A conversa com o irmão pode revelar que na estante deles estão alguns dos CDs que você tanto buscava para aumentar um pouco mais o seu conhecimento sobre o jazz e sobre você. Em um fim de semana em que a única expectativa era a ausência de compromissos e o único compromisso era não ter expectativas, o menos se tornou mais.

Teve sessão de vídeo com a mãe, teve conversa com o irmão e teve mais. Encontro com amigas queridas e muitas e variadas conversas…

Lembranças amarelas

Vi uma faixa amarela e lembrei de uma outra faixa amarela que não vi, mas que, ao ser vista, fez de mim uma lembrança. Rio de Janeiro, centro da cidade. Mesmo com passos apressados pelas necessidades domésticas, uma amiga viu em uma vitrine uma faixa amarela. Poderia ser a alça de uma bolsa ou até mesmo uma deslocada listra em alguma peça roupa, mas esse é um detalhamento desnecessário, porque o importante era a cor: amarela. Amarelo vivo e chamativo que a fez lembrar de mim.

Eu havia, dias antes, comentado sobre um vestido, não há necessidade de especificar a cor do vestido, que havia comprado e foi a lembrança desse breve comentário que trouxe a lembrança de mim. Na seqüência, muitas outras associações e exercícios de memória que terminaram a chamando de volta à realidade, com a lembrança das frutas e dos legumes amarelos que deveriam ser comprados. Era para um hortifruti que os passos apressados a levavam naquela tarde ensolarada.

Ela foi, mas a lembrança não se perdeu. Voltou no mes…

Reflexos de futuro

No caminho de sempre, as mesmas curvas, as mesmas retas. Previsível e tedioso, o percurso mudou logo após uma das muitas curvas. O fim da reta seguinte ainda não era visível quando pequenos pedaços de papéis prateados surgiram, voando no ritmo do ar deslocado pelos poucos carros que passavam. Pedaços que seriam apenas pedaços se a manhã não fosse aquela manhã. Naquela manhã, os papéis eram como estrelas vindas da noite, dançando para anunciar e celebrar novidades tão esperadas. Sob o sol da primavera, estrelas inesperadas que cintilavam, criando, entre os olhos e o caminho emoldurado pelo verde intenso das árvores e pelo exuberante azul do céu, um alegre descortinar de possibilidades. Ainda se movimentando suspensas no caminho, as estrelas ficaram para traz, mas deixaram o anúncio, para logo adiante, da felicidade. O futuro bem previsto em pequenos espelhos voadores.

A memória dos sentidos

Os sentidos se misturam nas lembranças daquele verão. Sinto na pele o mesmo arrepio sutil provocado pela brisa quente que anunciava um encontro. Tantos os encontros... O ar parece parado agora. Cessaram o balanço lento das folhas e a dança alegre dos fios do meu cabelo, mas reencontro, na ausência de movimento do ar, o passado. As mesmas fragrâncias, os aromas inesquecíveis. Cheiro de saudade. Gosto de felicidade. Preservada na lembrança, as imagens do primeiro amor. Sensações e sentimentos que, na memória dos sentidos e em todos os sentidos da memória, não passaram. Sempre volta aquele verão.

Próximo porto

A instabilidade do mar tem sido a companhia. Longo período de caminhos traçados pelas marés. Instáveis e surpreendentes, ora orientando, ora desorientando, elas trouxeram até aqui. Aquele ponto, inexistente nos mapas, mas determinante para a transição necessária e urgente. Vontade de olhar o mar da beira de um cais de madeiras firmes e sonoras, iluminadas por luzes amarelas, com cheiro de terra molhada e gosto de renovadas alegrias. Momento para ancorar em um porto mais aconchegante do que seguro. Buscar tranqüilidade sem tédio, novidade com jeito de um reencontro.