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Carta para não enviar

Meu... apenas, embora não somente, meu,

sim, tenho lido bastante. Respondo mesmo sem que me pergunte, porque sei que me perguntaria, talvez me perguntasse, se me escrevesse, se quisesse lembrar de mim sem a minha ajuda. Eram sobre livros as últimas frases que me enviou. Palavras que, como as poucas outras que me chegaram antes, formaram uma espécie de telegrama sem pontuação, sem letras maiúsculas e sem sentimentos, nem os mais minúsculos deles. Eu lembro, embora isso tenha sido há muito tempo, de suas escassas palavras.

Não li os livros que me indicou porque não os achei. Poderia tê-los achado se os tivesse procurado, mas faltou vontade para entrar em uma livraria que não se parecesse com um supermercado qualquer. Indicações suas são para serem buscadas em livrarias de estantes que vão até o teto, formando corredores estreitos que são como trilhas por histórias ainda não lidas e vividas. Indicações suas, são para depois, são sempre o próximo livro. Por uma lógica estranha e desconexa, afastando-o para o futuro não lhe deixo no passado.

Não vou lhe escrever sobre o meu presente. Poderia falar sobre meu trabalho ou sobre a viagem que quero fazer. Em algum momento tive o despropositado pensamento de convidá-lo para ir comigo. Seria uma experiência diferente, para usar o mais suave dos adjetivos, uma nova viagem juntos. Viagens. Fantasias. Falar sobre o meu agora seria como descrever sonhos. Os bons, que nos deixam com a vontade de não acordar, e os ruins, que tornam intenso o desejo de ver os primeiros raios de sol. Todos sem sentido e realidade.

O presente, esse de agora, é só meu. Com você, o desejo é compartilhar na primeira pessoa do plural. Nós. Mas nada de tempos pretéritos. Lembrar o que foi e o que fomos é um exercício nostálgico demais para a primavera de outubro e para todos os outros meses e para todas as outras estações. Mesmo diante do risco do tempo inexistente, prefiro a brincadeira da imaginação, da ilusão. Me agrada mais pensar em tudo aquilo que eu acho, e acho que seguirei achando, que ainda poderemos compartilhar.

Fantasiosamente, ainda sua... sua.

Comentários

juliana disse…
amores que foram e que ainda pode voltar a ser, mas refreshed, sem conotações do que foram numa outra vez? sei não. revivals trazem sempre um gostinho do passado, impreterivelmente. O que tb. faz parte.
Maira disse…
Lindo!!!