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Esquecer

“Sem esquecer não podemos ser humanos” - Nietzsche

Esta frase, lida em um livro, me trouxe alguns pensamentos. Um pouco perturbada e um tanto curiosa, fui buscar na internet mais informações e descobri que Nietzsche critica a tendência de tratar o esquecimento como algo negativo. O esquecimento pode, segundo as idéias do filósofo, ser uma possibilidade de sossego ou uma porta que permite a entrada do novo.

“Esquecer não é apenas uma força inercial, como crêem os superficiais, mas uma força inibidora, ativa, positiva no mais rigoroso sentido [...] o esquecimento é uma espécie de guardião da porta, de zelador da ordem psíquica, da paz, da etiqueta: com o que logo se vê que não poderia haver felicidade, jovialidade, esperança, orgulho, presente, sem esquecimento”, escreveu em 1978.

Pensei ainda mais. Lembrei dos muitos papéis auto-adesivos que contornam a tela do computador. Lembrar de marcar uma entrevista. Lembrar a consulta médica. Lembrar de pedir a foto que falta para fechar a matéria. Lembrar do aniversário da irmã e do casamento do irmão.. Lembrar, lembrar, lembrar e não esquecer. Não?

Talvez seja preciso também lembrar de esquecer. Não daquelas coisas que não podem mesmo ser esquecidas, mas das memórias que, mesmo sem lembretes, nos acompanham, nos perseguem e nos seguram em algum lugar perdido entre o passado e presente. Lembranças que não precisam de papéis coloridos para nos fazer perder a conexão com o futuro.

Penso, agora, em lembrar de esquecer. Vou colar papéis transparentes no espelho do guarda-roupa e em cima do travesseiro. Vou escrever legendas sem palavras em imagens guardadas na memória. Vou colocar placas invisíveis em lugares de todos os dias e em lugares de dias especiais. Vou camuflar lembretes imperceptíveis atrás das lentes dos óculos escuros e nas linhas de cada uma das tatuagens. Vou lembrar... Lembrar de esquecer...

Você.

Comentários

J disse…
Excelente reflexão!

Só queria que isso fosse mais fácil. Tem certas lembranças que me parecem muito com machucados sérios ou antigas fraturas, daquelas que, mesmo muitos anos depois de consolidadas, num belo dia de chuva, lembram de doer.
Jorge disse…
Esquecer algumas coisas faz parte do processo de amadurecimento. Mas é difícil...
Kah disse…
UAU!!!Lindo post.Parabéns!!!Esquecer é difícil, pois tem coisas que quando mais tentamos, mais nos vem a lembrança.Esquecer é mais difícil do que lembrar.Como diriam os antigos, o melhor remédio prá tudo é o tempo, e em se tratando de esquecer, ele realmente é imbatível.Lindo final de semana moça.
PS:Posso te linkar?
pedro disse…
Chuva(letra de Jorge fernando)


As coisas vulgares que há na vida
Não deixam saudade
Só as lembranças que doem
Ou fazem sorrir

Há gente que fica na história
Da história da gente
E outras de quem nem o nome
Lembramos ouvir

São emoções que dão vida
À saudade que trago
Aquelas que tive contigo
E acabei por perder

Há dias que marcam a alma
E a vida da gente
E aquele em que tu me deixaste
Não posso esquecer

A chuva molhava – me o rosto
Gelado e cansado
As ruas que a cidade tinha
Já eu percorrera
Ai, meu choro de moça perdida
Gritava à cidade
Que o fogo do amor sob a chuva
Há instantes morrera

A chuva ouviu e calou
Meu segredo à cidade e eis que ela bate no vidro
Trazendo a saudade