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Mostrando postagens de Maio, 2007

Lua azul

Hoje a noite será de lua azul. O nome poético, eternizado em uma clássica canção dos anos 30, é dado à segunda lua cheia de um mês. Não acontece sempre, em média a cada dois anos, e por isso encanta apaixonados e não apaixonados, artistas e loucos. Em um lindo poema, Cecília Meireles diz que “tenho fases como a lua”. Como as tenho! Mas em mim, as fases da lua não mudam rápido como nos céus. Mudam, talvez, com as luas azuis, com os também raros e enigmáticos eclipses. Em mim, as fases se repetem, se prolongam e podem perdurar por meses, por anos. Minhas fases são como as da lua mas não têm tempo certo, simplesmente acontecem e me fazem realidade. Hoje é dia de lua azul, para mim, tempo de deixar a fase da lua minguante. Entrego-me à lua nova sem saber quando ela se transformará em crescente. Crescerá no tempo necessário para que eu me renove e também cresça, para que também eu me transforme. Quando isso acontecer, a lua da minha fase terá as mais belas cores.
"Caem as folhas secas no chão irregularmente,
Mas o fato é que sempre é outono no outono,
E o inverno vem depois fatalmente,
E há só um caminho para a vida, que é a vida..."

(Fernando Pessoa)

Memórias

Uma música misturou as minhas memórias. Com a melodia, revivi experiências que vivemos e que apenas eu vivi. Na letra, uma saudade que não sei se feita de momentos compartilhados ou de sonhos abandonados. Nossos sonhos meus são simplesmente saudade. Não há metáforas para o que não vivemos. Há, talvez, as reticências. Três pontos que já levaram à ilusão do que ainda poderia vir a ser. Hoje, apenas três pontos, desbotados como o azul do papel de seda, frágil papel, que tenta proteger as lembranças mas abriu-se em rasgos sobre as fantasias. Minhas lembranças nossas são simplesmente saudade. Minha saudade de você.

Lua Nova

“Meu novo quarto
virado para o nascente:
meu quarto, de novo a cavaleiro da entrada da barra.

Depois de dez anos de pátio
volto a tomar conhecimento da aurora.
Volto a banhar meus olhos no mênstruo incruento das madrugadas.

Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir.

Hei de aprender com ele
a partir de uma vez
- sem medo,
sem remorso,
sem saudade.

Não pensem que estou aguardando a lua cheia
- esse sol da demência
vaga e noctâmbula.
O que eu mais quero,
o de que preciso
é da lua nova.”


(Manuel Bandeira)

Outono no Rio de Janeiro

Era outono no Rio de Janeiro. Para eles, terminava o inverno. As nuvens dela se dissipavam, fazendo clarear o céu e mostrando estrelas que, ainda tímidas, recomeçavam a brilhar. A aridez dele se transformava em um frescor conhecido, quase já esquecido, mas agora renovado. Juntos, eles se despiam de pesadas capas de passado, deixando-se encantar por vibrantes cores de primavera e entregando-se a envolventes brisas de verões inesquecíveis. Reaqueciam os corpos e os corações e com eles encontravam-se, no outono do Rio de Janeiro, todas as estações.

Eu em mim

Perdi-me em frustrações, me distanciei em amores não correspondidos, me afastei em ilusões reveladas. Desfiz-me em mim mesma e agora busco em mim pedaços meus. Transformei meus sonhos em areia e agora busco meus próprios grãos. Reconstruo-me ao me perceber, me redescubro ao me descobrir. Livrei-me das roupas e das ilusões. Deixei caídas as máscaras, mas não me mostro. Também não me escondo. Revelo-me. Encontro-me no medo infantil do escuro e na esperança ingênua de cada novo raio de luz. A solidão não me faz mais só e entre as minhas próprias paredes, cresço. Desconstruo e reconstruo. Abandonei as possibilidades efêmeras e agora faço realidade do que é real. Mudo os meus horizontes de lugar e todos os dias deixo que o sol me ilumine através de minhas frestas. Mesmo quando são nublados os dias.

Sem palavras

O que não pode ficar de fora de bolsas e de bolsos? São muitos e variáveis os itens que respondem a esta pergunta. Documentos, chaves, celulares e camisinhas estão entre o trivial, mas a combinação muda de acordo com necessidades e personalidades. Para hipocondríacos, remédios. Para as vaidosas, batom. Livros em edições de bolso para os intelectuais e bloquinho e caneta para os jornalistas. Há ainda as situações específicas. Na mochila da praia não pode faltar protetor solar. Na bolsa da festa, por menor que ela seja, o convite. Na pastas das entrevistas e dos primeiros dias de aula, um texto pronto.

Quem, na escola, não teve que, naquelas piores segundas-feiras do ano, escrever “como foram as minhas férias”? E o primeiro dia na faculdade? Por que, afinal, eu quero ser jornalista? Como se quatro anos não fossem suficientes para encerrar a questão, nas entrevistas ela volta disfarçada em questionamentos sobre o que somos (na verdade, o que pensamos que devemos ser para conseguir o empre…