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Mostrando postagens de Junho, 2007

Com as paixões

Foi pelo título que comprei e li pela primeira A Louca da Casa, da escritora espanhola Rosa Montero. Foi também pelo título que, em uma fase de releituras, anos depois, me reencontrei com o livro. Nele a autora mescla memórias lembradas e criadas, suas e de outros, com histórias e conceitos literários para tentar explicar o que é, afinal, que impulsiona a escrita. Muitas vezes o trabalho de escritor é associado a sentimentos desconcertantes como a paixão e é justamente a suas paixões que Rosa Montero dedica muitas das páginas do livro. Entre muitas outras, ela conta a história de uma paixão que, antes de se perder no passar dos anos, a fez, entre outras coisas, se dedicar intensamente ao aprendizado da língua inglesa. Detalhe que merece o seguinte comentário: “é impressionante pensar como a gente vai construindo um destino com semelhantes bobagens”.

Não é um privilégio de Rosa, tão pouco de escritores, se deixar mover pela paixão. Eu, e certamente você também, já fomos impulsionados ou…

Imagem da memória

Através de uma fotografia ele a via novamente. Fosse em um tempo passado, vivido por ele ainda criança, a imagem teria o romantismo daquelas retratadas em papéis que, com delicadeza e fantasia, eram tocados por dedos iludidos com a possibilidade de reencontrar pessoas e momentos, sentimentos já amarelados. Mas nesse passado em que o amor era, para ele, bem menos do que um substantivo abstrato, em que os encontros e desencontros faziam parte apenas das tramas das novelas que sua mãe assistia na televisão à noite e dos filmes que ocupavam suas tardes quando a chuva o impedia de ir para a rua, nesse passado que havia passado por ele sem que ele lhe dedicasse muita atenção, talvez as imagens não chegassem aos saudosos com a mesma facilidade de agora.

Agora que compreendia o que era o amor, agora que já havia encontrado felicidade e tristeza nesse sentimento, agora podia revê-la em um desses sites onde, se mostrando, as pessoas se escondem sobre virtuais fundos em tons pastéis. Na tela do c…

Saudade em uma partida de futebol

Aprendemos na escola que algumas substâncias não se misturam. Água e óleo, por exemplo, comprovamos com olhos de espanto que, juntos, continuam sendo dois. O mesmo olhar espantado observa nossas mãos ainda pequenas fazerem da mistura do azul com o amarelo o verde. Assim crescemos e descobrimos, já sem muita surpresa, outras coisas que, como as tintas, se misturam colorindo a vida. Ora com tons alegres, ora com uma melancólica variedade de cinzas. Coisas como os sentimentos, que se mesclam dando um não sei o quê que não conseguimos explicar nem em palavras, nem em cores.

Como definir aqueles momentos em que alegria e tristeza parecem ser uma coisa só? Emoção. Apenas dita, simplifica, mas sentida... Emoção que vem sorrateira e de forma inusitada, inesperada. Através da janela de um carro, em uma folha que cai de uma árvore, no ritmo de uma música desconhecida, em uma frase perdida em um livro de seiscentas páginas, na fotografia achada no fundo de uma gaveta ou em uma partida de futebol.…

Forte e amargo

Forte e amargo. Fazendo um café para aquecer a tarde fria, lembrei de você. Eu, que não tomava café, tenho agora esse hábito tão seu. Tomei-o tantas vezes com você que terminei por tomá-lo de você, mesmo sem você. Mais um hábito seu que agora é meu também. Não tenho mais recato ou pudor de reconhecer que fui como a criança que tenta ser como quem admira. É bom ser infantil quando não se é mais criança. Tão lindo e querido você... Lembrado no café sem açúcar e também no jazz que agora escuto com mais freqüência, no vinho que tento escolher com mais cuidado. Admirado nos comentários sobre livros que eu desconhecia mas que agora estão em novas prateleiras nas velhas paredes. Encantador escrevendo, se deixando iluminar pela paixão pelas palavras que agora também me seduzem. Agora também eu escrevo e minhas palavras ainda são para você. Sem você, fico um pouco com você. Como você. Aceita uma xícara? Bem forte e um tanto amargo.

El tiempo que no se perdio

"No se cuentan las ilusiones
ni las comprensiones amargas,
no hay medida para contar
lo que no podría pasarnos,
lo que rondó como abejorro
sin que no nos diéramos cuenta
de lo que estábamos perdiendo.

Perder hasta perder la vida
es vivir la vida y la muerte
y no son cosas pasajeras
sino constantes evidentes
la continuidad del vacío,
el silencio en que cae todo
y por fin nosotros caemos.

Ay! lo que estuvo tan cerca
sin que pudiéramos saber.
Ay! lo que no podía ser
cuando tal vez podía ser.

Tantas alas circunvolaron
las montañas de la tristeza
y tantas ruedas sacudieron
la carretera del destino
que ya no haya nada que perder.

Se terminaron los lamentos."

(Pablo Neruda)