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Imagem da memória

Através de uma fotografia ele a via novamente. Fosse em um tempo passado, vivido por ele ainda criança, a imagem teria o romantismo daquelas retratadas em papéis que, com delicadeza e fantasia, eram tocados por dedos iludidos com a possibilidade de reencontrar pessoas e momentos, sentimentos já amarelados. Mas nesse passado em que o amor era, para ele, bem menos do que um substantivo abstrato, em que os encontros e desencontros faziam parte apenas das tramas das novelas que sua mãe assistia na televisão à noite e dos filmes que ocupavam suas tardes quando a chuva o impedia de ir para a rua, nesse passado que havia passado por ele sem que ele lhe dedicasse muita atenção, talvez as imagens não chegassem aos saudosos com a mesma facilidade de agora.

Agora que compreendia o que era o amor, agora que já havia encontrado felicidade e tristeza nesse sentimento, agora podia revê-la em um desses sites onde, se mostrando, as pessoas se escondem sobre virtuais fundos em tons pastéis. Na tela do computador a via e a reconhecia, mas não conseguia reencontrá-la. Com os inesquecíveis olhos azuis fechados, a fotografia o privava do brilho que, talvez, já não fosse o mesmo de antes. A roupa não permitia estimar quilos ganhos ou perdidos, mas o rosto exibia uma palidez inchada que dava a ela um ar que não se reconhecia em nenhuma das memórias dele. Mas era ela e, sendo ela, ainda o emocionava. Comovia e o liberava para chorar as lágrimas reprimidas desde o último encontro.

Fosse uma foto de papel, sobraria vontade e faltaria coragem para rasgá-la, conservava muitas destas nas prateleiras mais altas do armário. No computador, bastava desligar a máquina para que lembranças e saudades ficassem guardadas em uma segura memória virtual. Se não era possível esquecê-la, ele sabia que não era possível, deixava para ela, então, um espaço especial em sua memória atemporal. Retida, com o brilho azul de seus inesquecíveis olhos, entre as lembranças do tempo em que ele ainda acreditava que amar era a forma mais poética de ser feliz, sempre e somente feliz.

Comentários

Kah disse…
UAU!!Que texto maravilhoso, retrata bem os amores de hoje em dia, muitoa apenas virtuais.Estava com saudades de ti e tuas letras, agora voltei.Um beijo doce e lindo resto de semana!!!
blá blá blá disse…
Que bem escrito!
e esta última parte:
"..que amar era a forma mais poética de ser feliz, sempre e somente feliz."
Bonitooo***
Kah disse…
Bom domingo.Beijos!!!