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Saudade em uma partida de futebol

Aprendemos na escola que algumas substâncias não se misturam. Água e óleo, por exemplo, comprovamos com olhos de espanto que, juntos, continuam sendo dois. O mesmo olhar espantado observa nossas mãos ainda pequenas fazerem da mistura do azul com o amarelo o verde. Assim crescemos e descobrimos, já sem muita surpresa, outras coisas que, como as tintas, se misturam colorindo a vida. Ora com tons alegres, ora com uma melancólica variedade de cinzas. Coisas como os sentimentos, que se mesclam dando um não sei o quê que não conseguimos explicar nem em palavras, nem em cores.

Como definir aqueles momentos em que alegria e tristeza parecem ser uma coisa só? Emoção. Apenas dita, simplifica, mas sentida... Emoção que vem sorrateira e de forma inusitada, inesperada. Através da janela de um carro, em uma folha que cai de uma árvore, no ritmo de uma música desconhecida, em uma frase perdida em um livro de seiscentas páginas, na fotografia achada no fundo de uma gaveta ou em uma partida de futebol. Foi em uma partida de futebol que, juntas, a alegria e a tristeza me encontraram da última vez.

Final de campeonato, o gol aos três minutos do primeiro tempo deu a falsa e breve ilusão de que a conquista seria fácil. Mas como poderia ser fácil a conquista para um time que, apesar de toda a tradição, já havia experimentado segunda e terceira divisões? Após um nervoso primeiro tempo, um segundo ainda mais perturbador. Sufoco e apreensão compensados com a vitória, com o primeiro título nacional após 23 anos. Alegria nostálgica que trouxe a saudade.

Não lembrei exatamente desse último título nacional, mas lembrei das muitas tardes de domingo no Maracanã, com camisa, bandeira e a companhia do meu pai na arquibancada. Criança, assistia aos jogos mas também me deliciava com o cachorro-quente e o refrigerante que, trazido em espécies de mochilas futuristas, era colocado no copo através de uma mangueira. Hoje não como mais carne e os refrigerantes são vendidos em latas, mas tenho ainda a lembrança. Tenho a emoção revivida daqueles mágicos momentos. Tenho a saudade.

Com meu pai aprendi o pouco que sei sobre futebol e me apaixonei, como aconteceria outras vezes na minha vida, pela paixão de uma outra pessoal. A paixão discreta e elegante, sem escudo pendurado no retrovisor do carro ou bandeira usada com objeto de decoração, do meu pai por um time de futebol. Assistindo pela televisão àquela conquista tive vontade de tê-lo novamente ao meu lado para abraçá-lo e me sentir ainda mais feliz com a felicidade dele. Algumas vezes os sentimentos se mesclam em um não sei o quê que não conseguimos explicar em palavras ou cores. Mas desta vez alegria e tristeza se misturaram em uma saudade tricolor.

Comentários

Jorge disse…
É, a vida é assim mesmo. Misturamos os nossos sentimentos a todo tempo e nessa confusão, acabamos nos perdendo muitas vezes. Dizem que o amor e o ódio são sentimentos muito próximos e não tenho dúvida disso. Essa complexidade, que nos faz estar alegre ou triste, de bem ou de mal, com cara boa ou cara amarrada, amar ou odiar, é que nos torna seres humanos.
Belo post, parabéns!