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Mostrando postagens de Agosto, 2007

Manhã de sonho

Acordou com vontade de pão quente e suco de laranja. Era o começo de um dia como outro qualquer mas, ao invés do branco leite de todos os dias, arrumou com cores a mesa. No prato, flores, no copo, brilho, no pão, manteiga, na mesa, lembranças. Esquecido na cama ainda desfeita, um sonho. Razão quase esquecida para começar diferente um dia que, depois, poderia ser como outro qualquer. Depois. Antes estava o sonho e estava no sonho o reencontro com ele. Eles. Era com vontade de pão quente e suco de laranja que se despediam das noites passadas juntos.

Operação alma

"Há os que fazem materializações...
Grande coisa! Eu faço desmaterializações.
Subjetivação de objetos.
Inclusive sorrisos,
Como aquele que tu me deste um dia com o mais puro azul de teus olhos
E nunca mais nos vimos. (Na verdade, a gente nunca mais se vê...) No entanto,
Há muito que ele faz parte de certos estados do céu,
De certos instantes de serena, inexplicável alegria,
Assim como um vôo sozinho põe um gesto de adeus na paisagem,
Como uma curva de caminho,
Anônima,
Torna-se às vezes a maior recordação de toda uma volta ao mundo!"

(Mario Quintana)

Amar você

Gostar é ter afeição. Afeto é sentimento. Sentir é ter consciência de gostar. Gostar de você é não ter certeza de mais nada. É buscar, sozinha, detalhes do passado. É tentar descobrir, nos tons amarelados do que já passou, se é possível deixar de gostar. Desgostar é fazer perder o gosto, magoar-se. Magoar-me não foi perder o gosto em você. Você que - para que relutar em reconhecer? – eu amo. Amar é ter amor. Amar você é tão difícil... É entregar-me à solidão de não de ser amada para, somente nela, reencontrar você. Você, afeição e sentimento meu.
Hoje que, afinal, não é qualquer dia...


Canção do dia de sempre

“Tão bom viver dia a dia...
A vida, assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como essas nuvens do céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...”

(Mario Quintana)

De volta ao MAM

Fazia sol na tarde do domingo em que eu estive no MAM (o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro) pela última vez. Aquela ida ao museu mereceu, inclusive, uma crônica (não escrita por mim) com um título que não exige muitos comentários: Praias Cheias, Museus Vazios. Estava mesmo vazio o cenário que, segundo a tal crônica – e eu não tenho como discordar muito – , era “grandioso, espaçoso, mas com conteúdo pequenino, sem obras expressivas”. Era. Hoje, quando voltei ao MAM, o cenário estava totalmente modificado, embora a tarde de sexta-feira estivesse tão ensolarada quanto a daquele domingo.

No primeiro andar, os tropicalistas. Após passar por Berlim, Londres, Chicago e Nova York, a exposição Tropicália – Uma revolução na cultura brasileira [1967-1972] chegou ao Rio de Janeiro. Fotos, roupas e vídeos fazem referência direta à música, a faceta mais conhecida do movimento, mas há também obras que mostram o desdobramento do movimento no teatro e na arquitetura. Entre os 250 objetos exposto…
"Leve os sonhos a sério. Nada é tão verdadeiro que não mereça ser inventado."


(... o mesmo autor, no mesmo livro...)


"O presente é isso mesmo, um presente!"


(José Eduardo Agualusa - As Mulheres do Meu Pai)

Cartas

Houve um tempo em que os carteiros traziam mais do que propagandas e cobranças. Um tempo em que os telefones já existiam mas eram as cartas que comunicavam as notícias mais importantes, as novidades mais desejadas e as palavras mais esperadas. Dentro de um envelope, podiam ser consolidados laços de amizade e eternizadas histórias de amor, mesmo as mais efêmeras delas. Eram as cartas e os cartões postais (cartões postais...) que nos confirmavam a resistência das amizades à distância.

O saudosismo desse que, afinal, não é um tempo tão distante assim, estava guardado na última prateleira do armário. Foi lá que encontrei uma caixa de papelão pintada com as minhas próprias mãos. Dentro dela, fragmentos, selados e carimbados, de histórias minhas que foram também de outros, de história dos outros que foram também minhas, da minha história.

Quem ainda escreve cartas? Eu mesma, não tenho lembrança da última vez que fui a uma agência dos correios. Mas, de certa forma, eu ainda escrevo cartas. Alg…

Agosto

Os sinos tocam e o tempo venta em todas as direções, espalhando certezas e levantando incertezas. As lembranças e os sonhos se movimentam em torno daquele que é o ponto de partida e também o de chegada, que é o início e o fim de tudo. Agosto. Faz frio sob o céu branco, mas logo o sol virá.