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Mostrando postagens de Setembro, 2007

Meses

Pensava em desistir daquele ano. Já haviam se passado dez dos doze meses e era como se nada tivesse acontecido. Como a brisa que nunca se transforma em vento, como as nuvens sutis que não se carregam para se desfazerem em chuva e tão pouco se dissipam para deixar passar a luz do sol, dez meses de penumbra abafada. Meses de um prefácio escrito sem letras em páginas amareladas pelo passar de dias vazios. Tantos dias.

Pensava através dos tempos, lembrando o já passado e tentando prever o tempo por vir. Cinzas previsões o faziam pensar em desistir. Mas havia as lembranças dos dias que já haviam sido. Tantos dias que lembrava, como o pensamento daquele momento, vagos, desconexos, distantes. Manhãs construindo castelos de areia, tardes com cheiro de chuva de verão. Dias de alegria sutil que eram, agora, quase que novos velhos sorrisos.

Havia, em algum lugar, a alegria de encontrar a bicicleta verde ao lado da árvore de Natal em uma madrugada quente dos seus seis anos. Havia, um dia, a conquis…
"Silba el viento dentro de mí. Estoy desnudo. Dueño de nada, dueño de nadie, ni siquiera dueño de mis certezas, soy mi cara en el viento, y soy el viento que golpea mi cara"

(Eduardo Galeano)
"Sabe, minha filha, quem quer viver procura viver"

(dona Canô, mãe de Caetano Veloso e Maria Bethânia, em entrevista à edição de setembro de 2007 da revista TPM, onde fala sobre seus 100 anos de vida, completos em setembro)

Sonho

Sonhei. Acomodada na velha poltrona, sob os raios da lua que conseguiam entrar por uma pequena fresta na janela, observava você dormindo. Com um sorriso suave, lembrava que era sempre dormindo que você mais me lembrava você. E era esse você que eu tinha vontade de abraçar e sentir o cheiro nunca esquecido. Tinha vontade de voltar para cama e deitar ao seu lado, ter a sua pele novamente na minha e aproveitar a entrega inconscientemente permitida.

Sem ser esta a vontade, continuei sentada. Entregue a lembranças e pensamentos, entendi que o melhor era deixá-lo dormir e ir embora com os sonhos que sempre foram só meus. Os sonhos de cada reencontro. Como sonhei... Sempre foram lindos os nossos reencontros. Sempre foi dolorido amanhecer deles. Hostilidade e frieza com os primeiros raios de sol. Lembro e penso que já deveria ter deixado você na penumbra das boas lembranças.

Talvez eu pudesse ter dito que amo você. Tantas vezes você me provocou essa declaração para, em todas, fazer duros comen…

Pequena ode mineral

“Desordem na alma
que se atropela
sob esta carne
que transparece.

Desordem na alma
que de ti foge,
vaga fumaça
que se dispersa,

informe nuvem
que de ti cresce
e cuja face
nem reconheces.

Tua alma foge
como cabelos,
unhas, humores,
palavras ditas

que não se sabe
onde se perdem
e impregnam a terra
com sua morte.

Tua alma escapa
como este corpo
solto no tempo
que nada impede.

Procura a ordem
que vês na pedra:
nada se gasta
mas permanece.

Essa presença
que reconheces
não se devora
tudo em que cresce.

Nem mesmo cresce
pois permanece
fora do tempo
que não a mede,

pesado sólido
que ao fluido vence,
que sempre ao fundo
das coisas desce.

Procura a ordem
desse silêncio
que imóvel fala:
silêncio puro,

de pura espécie,
voz de silêncio,
mais do que ausência
que as vozes ferem.”

(João Cabral de Melo Neto)

A favor do tempo

Braçadas leves e assimétricas me levam pelas águas de um sentimento em lento movimento. Flutuo sem perceber sobre a correnteza de lembranças e de esquecimentos. Mergulho para, sob a fluidez do amor e da saudade, dar passos vagos. Movimentos inseguros de um dança solitária e improvisada por entre idéias que se dispersam com o vento. Vento com o vento porque sou eu, vivendo a favor do tempo.

Amizade

Já escrevi para revistas de diferentes estilos e apesar disso, ou talvez por isso, tenho grande resistência às novidades apresentadas por elas como verdades últimas, aos novos conceitos que parecem inquestionáveis e às teorias que são definitivas até a próxima edição. Mas eu leio tantas revistas quanto posso, acredito desacreditando e adoro.

Gosto, especialmente, quando o que está impresso nas páginas é lido por mim de uma forma especial, com identificação e cumplicidade, como idéias que sussurram minhas verdades, sejam elas verdadeiras ou não. Foi o que aconteceu esta semana, quando li uma reportagem sobre amizade feminina.

Havia, claro, a lembrança de conhecidos estereótipos e pré-conceitos como aqueles que dizem que mulheres não conseguem ser amigas de verdade porque estão sempre competindo, que a tão propalada lealdade masculina se afasta ainda mais das mulheres quando o assunto é beleza, homem ou carreira.

Fosse só isso, eu não consideraria nenhuma das cinco páginas de texto, mas a …