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Meses

Pensava em desistir daquele ano. Já haviam se passado dez dos doze meses e era como se nada tivesse acontecido. Como a brisa que nunca se transforma em vento, como as nuvens sutis que não se carregam para se desfazerem em chuva e tão pouco se dissipam para deixar passar a luz do sol, dez meses de penumbra abafada. Meses de um prefácio escrito sem letras em páginas amareladas pelo passar de dias vazios. Tantos dias.

Pensava através dos tempos, lembrando o já passado e tentando prever o tempo por vir. Cinzas previsões o faziam pensar em desistir. Mas havia as lembranças dos dias que já haviam sido. Tantos dias que lembrava, como o pensamento daquele momento, vagos, desconexos, distantes. Manhãs construindo castelos de areia, tardes com cheiro de chuva de verão. Dias de alegria sutil que eram, agora, quase que novos velhos sorrisos.

Havia, em algum lugar, a alegria de encontrar a bicicleta verde ao lado da árvore de Natal em uma madrugada quente dos seus seis anos. Havia, um dia, a conquista do primeiro emprego, começado em um novembro distante. A emoção da primeira viagem de avião, a excitação do primeiro beijo, a lágrima que caiu no momento em nascia o primeiro filho. Novembro.

Histórias suas abafadas pela angústia de agora. De quase agora, porque agora havia de novo o vento. Sentia voltar a si o movimento e sorria de novo diante das páginas amareladas e sem letras que eram agora, exatamente agora, o espaço branco onde poderia viver. Sorrir diante de dois meses que poderiam ser os últimos e os primeiros. Pensava de forma não linear e antes de desistir, não pensou mais em desistir. Viver.

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