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Flores

Seus pés foram os primeiros a perceber que o caminho mudara. Primeiro foi a sensação de algumas poucas conchas sobre a areia. Logo eram muitas e agora pisava em pequenas e incômodas pedras. Pedrinhas de infinitos tons de cinza e aspereza quase que uniforme. Disforme. Esforçava-se para olhar para frente, mas ao evitar olhar para trás só o que via era o exato local em que seus pés pisariam dois passos adiante. E mais dois, e os próximos dois, e os dois seguintes. Nesse monótono caminhar não seria capaz de precisar se lhe cobria sol ou nuvens. Não conseguira identificar o que havia nas margens. Árvores? Flores?

Flores. Não percebia sequer que ainda estavam, na mão direita, as flores recebidas. Elas estavam há dois passos do local em que pisaria quando desse mais dois passos e, por isso, fora do campo de visão. Fora do jardim da memória. Memórias recentes ficadas na areia de quase agora. Encontradas ali, exatamente onde cessaram seus passos, surpresos com novos velhos vestígios de grãos de areia. Olhou na altura de seus próprios olhos e viu uma mulher de negros e brilhantes cabelos. Ela sorria para as flores que, só agora, lembrou que trazia nas mãos. Olhou também para as flores e as percebeu secas.

“Morreram”, disse com um tom poderia ser de um lamento que não era pelo vermelho perdido das flores, tão pouco pelo verde desbotado das folhas. “Não”, limitou-se a dizer em tom doce a mulher de cabelos que agora pareciam ainda mais negros e brilhantes. Com mãos leves, ela deixou cair sobre as pedras do chão, folhas marrons e pétalas amareladas, revelando aos seus olhos e mãos, frágeis botões. “Vivas como você”, sussurrou antes de desaparecer. Talvez não tenha desaparecido. Não conseguiria dizer ao certo porque, sentindo de novo nos pés o toque da areia, foi surpreendido pelo doce perfume de depois.

Comentários

Fabricio Yuri disse…
a velha arte de voltar... =)))
irving disse…
Roberta, muito bacana seu blog. Adorei mesmo.