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Cores de uma quarta-feira

Quartas-feiras são dias em branco. Não amanhecem com o tom de cinza que descolore mesmo os mais ensolarados domingos, e nem com o azul que resiste às nuvens de sextas-feiras nubladas. Sem serem início ou fim de semana, são brancas para poderem ser os dois. Brancas para que os acontecimentos desenhem sobre cada uma delas a história de mais um único dia. E naquele dia único, parecia amanhecer desbotado o desenho de quarta-feira.

Os primeiros passos apressados foram surpreendidos por uma chuva forte. Nas muitas poças que rapidamente formaram-se por todo o chão, a única cor refletida era a do guarda-chuva vermelho. E foi o vermelho diluído pela água daquela manhã que a guiou até a esquina da grande avenida. Ainda com os olhos baixos, percebeu um brilho diferente sobre o asfalto. Não era mais o reflexo do vermelho que trazia sobre a cabeça, mas do alaranjado que emoldurava a grande catedral a sua frente. Olhou de frente e viu mais bonito o conhecido prédio.

A grande igreja estava iluminada pela energia do sol que, lá atrás onde o mar encontrava o céu, queria fugir das muitas nuvens daquela manhã. Quis, também ela, fugir. Deixar jogada na esquina a falsa proteção colorida do guarda-chuva vermelho e seguir, com os pés descalços sobre o asfalto molhado e brilhante, até o horizonte iluminado. Não fez isso, mas um olhar mais atento poderia ter percebido que atravessou a rua com os passos leves da alegria sutil de uma aquarela pintada sob o branco de uma quarta-feira.

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