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Através da vidraça

No dicionário é vitrina, mas o uso comum determina que é vitrine a vidraça através da qual ficam expostos objetos destinados à venda. Vez ou outra se vê em algum noticiário, filme ou coisa que os equivalha – eu, pessoalmente, nunca vi ao vivo – pessoas no lugar de objetos. O objetivo é sempre o mesmo: chamar atenção. De fato, pessoas expostas como manequins chamam atenção. Pensava isso dias desses, quando o frio de um fim de uma tarde de outono me levou até um café. Acompanhada de meus pensamentos sentei solitária diante de um balcão, entre ele e a rua, uma parede quase toda de vidro. Estava eu em uma vitrine?

Não. Logo percebi que ninguém olhava para mim ou para as outras pessoas sentadas ao meu lado. A perspectiva era outra. A observadora era eu e, através da vidraça, o que estava exposto diante dos meus olhos era a rua. Frenético movimento de um fim de dia que deslocava as pessoas de um lado para outro, de outro lado para um, todas as direções. Pessoas que traziam nos rostos múltiplas expressões e que determinavam com os próprios passos ritmos variados para um mesmo tempo. Tempos. No tempo que fiquei ali, foram tão numerosas quanto desconhecidas as histórias desfiladas através do vidro. No meu tempo ali, as recriei com a imaginação solta atrás do vidro.

Sob a melancólica luz amarelada, me pareceu melancólico o caminhar de um senhor. Saudade era o que ele sentia. No vento frio, parecia flutuar a moça de casaco amarelo. Apaixonada, ia ao encontro de alguém. O casal passou com movimentos tão sincronizados que pareciam seguir a coreografia dos que amam. Os que não mais se amam caminham distantes como o casal que passava sério e mudo. Na esquina, uma mulher de vestido tentava, encolhida, se proteger do frio de seu próprio coração. Solitária como a senhora de cabelo lilás que olhava para os prédio antigos em uma viagem ao tempo em que não poderia saber o que era solidão.

O passado cruzou com o futuro quando, no sentido contrário, veio o rapaz de terno e mochila nas costas. Ia apressado para uma aula, mas queria, na verdade, chegar logo a seu futuro idealizado. O futuro bem guardado na barriga da mulher grávida. O futuro perdido nas crianças que pediam dinheiro na porta da loja de uma grande rede de fast food. A realidade me chamou e voltei ao presente com a mesma rapidez em que os sanduíches chegavam ao balcão da lanchonete em frente. Tomei o que restava na xícara, deixei no café as histórias criadas através do vidro e fui para a rua, com meu ritmo e minha expressão, viver as minhas histórias. Inventadas ou vividas, todas verdadeiras.

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