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Mostrando postagens de Junho, 2008

Cantiga

"Quando passarem os dias,
e não mais se avistar
nosso rosto, e o sereno
modo nosso de olhar,

e a nossa evaporada
voz não viver mais no ar,
e as sombras esquecerem
a que era a do nosso andar,

vai ser doce pensar-se
- em que secreto lugar? -
nos sonhos que inventávamos,
ternos e devagar,

no perfil que tivemos,
tão fino e singular,
e no louro e nas rosas
que o poderiam coroar,

e nos vergéis que sentíamos,
quando íamos a par,
ouvindo o amor que nunca
chegou a sussurrar..."

(Cecília Meireles)

Dia de circo

Naquele dia não tinha marmelada e nem goiabada. Não tinha palhaçada, mas era dia de circo. A noite chuvosa de sexta-feira guardava, sob a lona azul e branca, uma surpresa. Sedutora surpresa de sorriso sincero e iluminado olhar da cor do céu. Encantadora surpresa revelada na penumbra da arquibancada. O espetáculo daquela noite começou e eu não vi. Senti, com o primeiro beijo, que o que começava ali estava muito além do picadeiro. História de enredo indefinido, feita de breves e intermitentes atos. Felizes e finitos atos. Como no fim de todo espetáculo, as luzes se apagarão. Sempre penso terem elas já se apagado, sempre penso ter sido a última, a última cena. Não. Ainda não? Mas quando for, de verdade, o fim, ficará, na sombra, a saudade. Sentada, no estreito banco de madeira, ao lado da felicidade.

Canção de nuvem e vento

"Medo da nuvem
Medo Medo
Medo da nuvem que vai crescendo
Que vai se abrindo
Que não se sabe
O que vai saindo
Medo da nuvem Nuvem Nuvem
Medo do vento
Medo Medo
Medo do vento que vai ventando
Que vai falando
Que não se sabe
O que vai dizendo
Medo do vento Vento Vento
Medo do gesto
Mudo
Medo da fala
Surda
Que vai movendo
Que vai dizendo
Que não se sabe...
Que bem se sabe
Que tudo é nuvem que tudo é vento
Nuvem e vento Vento Vento!"

(Mario Quintana)