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Mostrando postagens de Dezembro, 2008
“... esse cansaço era uma pequena mentira misturada a um pouco de felicidade. Então me resignava a esperar as palavras que me viriam daquele mundo quase mudo, de costas para mim, deslizando com o esforço de minhas mãos doloridas. (...) Minha tristeza era preguiçosa, mas eu vivia na minha imaginação com o orgulho do poeta incompreendido. (...) Eu estava destinado a só me encontrar com uma parte das pessoas e, além disso, por pouco tempo, como se fosse um viajante distraído que também não soubesse para onde ia...”

(Felisberto Hernández - A Casa Inundada)
Sonhei um longo sonho com você. Difícil reencontro que me fez acordar nublada como a manhã daquela sexta-feira. Sexta-feira, dia que não deveria amanhecer nublado. Amor, sentimento que não deveria encobrir. Encobriu a mim na sexta-feira em que lágrimas e chuva despertaram o que em mim nunca adormeceu.

Chuva de domingos

Como hoje, era domingo. Naquele domingo, como no de hoje, nuvens também encobriam o céu. Mas a chuva daquele dia, se caiu, não foi com a de hoje. Hoje choveria mesmo sem nuvens porque, hoje, elas não estão apenas no céu. Estão na taça de vinho sem par. Estão nas músicas que me fazem acompanhia, as mesmas músicas que nos acompanharam naquele domingo distante de agora. Eu tento seguir sozinha os passos da dança que desejamos dançar juntos no dia em que ainda poderíamos dançar juntos. Não dançamos e chove, hoje, todos os domingos em que não poderemos mais dançar. Choverá mesmo quando for azul o céu de domingo. Como hoje, era domingo, mas não era um domingo como o de hoje.

Em busca de uma idéia adormecida

Há muito tempo repito para mim mesma que devo dormir com um caderno ou um gravador ao lado da cama. O objetivo não é, embora pudesse ser também, seguir o que dizia Jung, e registrar os sonhos. Trata-se de ter como guardar as idéias que surgem naqueles momentos de semiconsciência que precedem o sono ou dividem os sonhos. Idéias sempre boas, as melhores, perdidas antes do total despertar.

Como repito mas não faço, tenho passado as últimas semanas em busca de uma idéia que, sei e isto é apenas o que sei, seria o ponto de partida de um excelente texto. Assunto, tema, tom... Já tentei associar a ela sentimentos ou pessoas, lembrar algo dela capaz de estimular minha memória. Mas minha memória parece que não acordou junto comigo. Recordo de tê-la organizado em duas ou três frases inspiradas, também perdidas no meio de uma madrugada de insônia parcial.

Recordo, e isso é o mais cruel, de ter pensado em escrevê-la no caderno branco de todas as minhas variedades. Tivesse escrito... Mas sucumbi à…
“Havia tanto tempo perdido em você, você era de tal maneira o molde do que poderia ter sido sob outras estrelas... e era nisso que eu me enganava, deixando-me cair no imbecil orgulho do intelectual que se considera equipado para entender...”

(Julio Cortazar – O Jogo da Amarelinha)