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Onde o carnaval é mais carnaval

Eles foram chegando aos poucos. Com o calor da tarde de verão, passaram antes em casa, tomaram banho, se perfumaram e causaram uma certa inveja em mim, que desde cedo na rua tinha praticamente atravessado a cidade para fazer uma entrevista. Eram meninos - uns mais, outros menos velhos, mas todos meninos - integrantes da bateria. Todos convocados para fazer uma apresentação para... mim. Se os primeiros acordes de uma bateria de escola já são capazes de contagiar o menos carioca dos corações, o que dizer de uma apresentação inteira para alguém de coração carioquérrimo? Especial é pouco.

Fui à quadra do Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos do Cabral para fazer uma matéria para um portal que traz dicas e informações sobre a dengue. A azul, vermelho e branco do bairro do Cachambi fala da doença no enredo deste ano. Na quadra modesta que fica no alto de uma ladeira, nada lembra a indústria do luxo em que se tranformou o Carnaval das escolas do Grupo Especial. Programa para turista ver? Esquece! Na Unidos do Cabral o Carnaval é fiel a sua essência e origem, tão alegre quanto popular.

São as pessoas da comunidade que ocupam a quadra. Vindas dos trabalhos e das escolas, elas trabalham muito, mas com prazer. Ali, ninguém se importa que o resultado de tanto trabalho não possa ser visto na Sapucaí – como a escola está no grupo Rio de Janeiro 2, desfila na Intendente Magalhães, no subúrbio da cidade. Ainda! O desejo e o objetivo declarados pelo presidente da Unidos do Crabal é chegar à Passarela do Samba. "Vamos ser campeões este ano e no próximo estaremos lá desfilando", prevê Magrão.

Enquanto o carnaval não chega, todos trabalham. Alguns afinam os instrumentos, outros cortam moldes de fantasia, crianças correm, ainda sem saber, mas já seduzidas pelo carnaval que, para toda a comunidade, começa muito antes de fevereiro. O samba enredo toca, no volume máximo, em um pequeno aparelho de som. A gravação é interrompida para os meninos tocarem com o coração. Mesmo sem holofotes, mesmo sem plateia, eles sorriem. Tocam e sorriem para que eu os fotografe e, a cada clique, lamento não ter som as imagens registradas.

Comentários

irving disse…
Isso aí! Sintetizou tudo, principalmente a questão do "glamour" das grandes agremiações. Samba é isso aí.
Abraços.