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Porque uma hora não tem mais como piorar

Se quinze minutos de atraso costumam ser tolerados e até previstos, o que dizer de um adiantamento de meia hora diante de olhos vermelhos e espirros em série atestando o poder de um simples resfriado? Nada. Meia hora não é nada, mas achei que pudesse fazer toda diferença para chegar mais rápido em casa, me enrolar no edredom e me jogar na cama.

Entre o ônibus e o metrô, escolhi o primeiro. Como a meia hora faria a diferença, o trânsito de sexta-feira não faria a diferença. Para ajudar, o ônibus logo passou e o primeiro mas logo surgiu: era um ônibus com ar. Perfeito para um fim de tarde com temperatura de verão, mas para o início de uma noite com chuva de quase inverno... Chegar logo era o objetivo, então fui. Entre e... O segundo mas. Cheio, nenhum lugar.

Quando eu já conformada que o tempo em pé logo seria compensado na minha cama – minha cama, ideia fixa – alguém levantou e coube a mim o lugar que ficou vago. Mas... Mais um mas. Logo percebi que a pessoa ao meu lado estava de óculos escuros – óculos escuros de noite? – e em seguida, ao ver que ela levava com frequência um lenço aos olhos escondidos sob as lentes escuras, a dedução óbvia: conjuntivite. Ah, não, não preciso de mais nenhuma ite!

Mesmo sem ter ouvido os meus pensamentos, a pessoa desceu logo depois. Mas... O trânsito parou. Mesmo sem sair do lugar o ônibus foi ficando vazio e eu, ainda atormentada pela conjuntivite que havia estado ao meu lado, mudei de lugar. Lembrei que tinha um vidrinho de álcool gel na bolsa e passei nas mãos pensando que, na verdade, queria era ter uma garrafinha de cachaça na bolsa...

Não havia cachaça e sim um livro. Ler ajudaria a passar o tempo se alguém não tivesse decidido ouvir música no celular, sem fone, claro, porque no meio de tantos mas eu não poderia esperar outra coisa. Embora houvesse outra coisa. Além de ouvir a pessoa cantava. Sim, música ruim em dobro no meio do engarrafamento.

Talvez querendo cantar para um público maior, o dono do celular e da falta de talento vocal também desceu. Seria a paz, mas... Sentou do meu lado, mesmo com tantos lugares vazios sentou do meu lado, alguém que não afalava, gritava. Em alto e bom som, atentados violentos à gramática portuguesa. Até que esta pessoa também desistiu. E eu, resistiria mais quanto tempo no meio de tantos mas?

Dominada por uma estranha mistura de mal-estar, irritação, tédio e impaciência, peguei o celular e mandei uma mensagem para quem não deveria mandar. Mas – finalmente um mas que não é como os outros – chega uma hora em que não dá mais para ficar pior. Erro no envio. A mensagem não pode ser enviada e não é que parece que os carros voltaram a andar? Ainda devagar, mas... Agora bendito mas, já há um movimento.

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