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Depois ainda é antes

O sol já estava lá, mas ainda não podia ser visto. Entre tantos sentimentos, não podia ser sentido. Talvez pressentido na luz que ressaltava o azul do céu. O céu estava azul, mas fazia frio.

O sol estava lá, mas a cidade permanecia adormecida. Anestesiada, talvez. Eram poucos os carros que passavam e a velocidade deles, de todos eles que eram case nenhum, era inferior a dos meus pensamentos. Meus sentimentos.

Eu sentia a saudade. Ela já estava lá, podia ser sentida na ausência pressentida, anunciada. Você havia anunciado o fim de algo que sequer tinha começado e estávamos os dois ali.

Naquela esquina, sentindo nossas ausências, de agora, de antes e de sempre, nos braços daquele instante, braços de agora. Abraços de agora, de antes, de depois que depois não mais viria.

Eu não queria ir. Eu não queria chorar. Chorei por ter que ir. Chorei por sentir seu corpo deslizando pelo meu como água que não volta. Chorei por sentir sua frase como o último grão de um punhado de areia fugido de minhas mãos.

“Já vivemos despedidas mais tristes”. Não. Despedidas não são mais ou menos. Despedidas são tristes. É triste sentir o futuro se tornar passado. É triste ver o presente se dissipar antes do depois.

Eu não queria, mas chorei. Eu não queria, mas fui. Pela rua quase sem carros, não olhei para trás. Fui, mas não segui e ainda não consegui me virar para frente.

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