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Saudade do que não vivemos

Hoje estive no nosso bar. Escrevo nosso bar porque só estive lá com você. Estive lá com você só duas vezes, mas mesmo que fosse apenas uma, mesmo que estivesse estado lá outras vezes sem, mesmo que estivesse estado lá outras vezes com outras pessoas, fossem quais fossem as pessoas, ainda assim sentiria aquele como sendo o nosso bar. Talvez porque, de verdade, nunca tenha havido, nunca tenha tido chance de haver algo que fosse realmente nosso.

Eu e você não chegamos a ser nós. O nosso talvez tenha tido chance (ou apenas vontade, apenas a minha vontade) de surgir naquele bar, onde nos reencontramos depois de tanto tempo e nos desencontramos, de forma inversa, pouquíssimo tempo depois. Talvez o nós tenha ficado perdido na prateleira da livraria que fica na esquina do nosso bar.

Hoje na livraria também. Mas desta vez, ao contrário da outra (não sei se a outra foi a primeira ou última vez que estive lá, mas será a única que vou sempre me lembrar), eu não estava fazendo hora para encontrar você. Mas entre os livros reencontrei a expectativa de ver você. Não vi, mas senti o seu sabor próximo dali, na praça que fica em frente ao nosso bar e onde nos beijamos pela primeira vez depois que nos reencontramos.

Havíamos nos beijado outras vezes anos muitos antes, mas se o primeiro beijo é inesquecível, para o beijo de reencontro não há adjetivo. Qualquer um que se pense, é mais. Para o beijo de despedida também não há adjetivo, mas, neste caso, qualquer um seria menos. Passei também pela esquina onde ele aconteceu. Não foi o nosso último beijo, mas foi o que determinou o fim do que não começou. Foi naquela esquina, na frente da farmácia, que eu e você continuamos sendo apenas eu e você.

Não foi naquela esquina que nos despedimos para sempre - lembra que disse que “para sempre” era tempo demais? -, mas foi nela que ficou definido (não sei se pelas circunstância ou só por você) que eu e você, nunca seríamos nós. Ali, tudo que pudesse ser verdadeiramente nosso perdeu a chance de existir.

Resistiu apenas a vontade, a vontade só minha de que viesse a existir. Resite. Tenho vontade e é tamanha esta vontade, que me lembro de você mesmo que faltem, assim como falta algo que seja verdadeiramente nosso, lembranças que sejam verdadeiramente lembranças. Nossas lembranças. Nosso. Nós. Fiquei eu. Eu hoje, pensando no que seria nosso se nós tivéssemos chegador a ser.

Mas o nosso, aquele que construiria lembranças realmente nossas, ficou suspenso entre os livros da livraria, ao lado dos copos do bar, nas pedras do calçamento da praça, no hidrante em que você se apoiou na esquina em que deixarmos de ser sem nunca termos sido. Nós. Ficamos no pretérito imperfeito quando eu queria que, verdadeiramente, tivéssemos lugar em um futuro do pretérito que um dia seria imperfeitamente perfeito.

Hoje, em uma frase, que é também título: saudade do que não vivemos.

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