Pular para o conteúdo principal

Eu. Escritora?

Um dia foi um escorregão e uma queda. Levantei, corri, peguei meu ônibus, fiz piada e continuei. Continuei pouco porque outro dia, não muito depois, uma torção no tornozelo. Não caí, portanto, não precisei levantar, mas mal consegui ficar de pé e andar não era exatamente o mais fácil de fazer. Aí, não teve jeito, tive que parar. Eu, com pés que pareciam ser cada um de uma pessoa difernte, entediada, irritada, ansiosa... Parada. Nem trabalho para fazer passarem rápido os dias, nem vinho para relaxar, nem bicicleta para pedalar e extravasar, nem chocolate para consolar.

Tédio, péssimo humor e uma desconfiança: seria ou deveria ser esta uma parada estratégica. Parar para se movimentar? Ócio criativo? Mas cadê criatividade? Se um pé, o que parecia da pessoa que não era eu, não tinha formas definidas, as ideias combinavam com ele. Mas alguém sugeriu: “aproveita e escreve seus textos”. Meus textos... Meus textos? Foi bom receber a mensagem, foi boa a sugestão e foi melhor ainda ler “meus textos”. Meus textos! Sim, já existiram textos escritos por mim! Mas ainda haveria algo para escrever e chamar de meu? Eu escritora?

Com o pé no alto e as ideias em baixa, a questão surgiu: eu escritora fui uma ilusão, uma brincadeira, uma fraude ou uma promessa não cumprida? Seria eu capaz de cumprir a vontade de escrever? Senta e escreve! Começa! Tenta! Continua! Não para! Se já existiram textos meus, existiram, também, outras mensagens e frases e expressões e tentativas de fazer acreditar que sim: eu escritora. Talvez ilusão, talvez brincadeira. Talvez promessa, mesmo que não seja cumprida, de me iludir e de brincar de eu escritora. Eu. Mesmo com ideias sem formas definidas, disposta a tentar. Escrever. Será?

Comentários