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Uma mochila azul ou como não ser todo mundo

“Você não é todo mundo”! Que mãe nunca disse e que filho nunca ouviu esta frase? “Todo mundo vai”, “todo mundo tem”, “todo mundo faz”, mas... Você não é todo mundo. A frase pode ser só uma frase, uma, digamos, reposta padrão, mas pode ir além, pode ser mais, pode ser o caminho para entender que não ser todo mundo é ser único, que ser único pode ser diferente, mas que ser diferente pode ser bom.

Muito provavelmente minha mãe me disse que eu não era todo mundo muitas vezes. Mas, mais do que dizer, ela me mostrou que não ser como todo mundo, não ter o que todo mundo tinha ou fazer o que todo mundo fazia, do jeito que todo mundo fazia, poderia ser expansão e não restrição.

Lembro de uma mochila azul que tive na época da escola. Naquela época, todo mundo usava um modelo de mochila de uma mesma loja. Moda, status, padrão, necessidade de se sentir parte do grupo? Talvez por tudo isso, eu queria a mochila que todo mundo tinha. Não rolava de ter naquela época.

Meu pai certamente optaria por comprar um modelo similar, genérico – embora o termo não fosse usado naquela época. Mas minha mãe sugeriu um modelo totalmente diferente. O argumento, ninguém teria uma mochila como a minha. Ninguém teve e eu me lembro daquela mochila azul com estrelas em baixo relevo no tecido emborrachado até hoje.

Lembro também – embora não saiba ao certo se isso foi antes ou depois da mochila azul – que aos nove anos quis cortar o cabelo bem curtinho. Desta vez minha mãe, sabendo o quanto cortes de cabelo mal sucedidos podiam virar um drama, foi mais prudente: “tem certeza? Você pode se arrepender...”. Eu não tinha muita certeza de nada naquela época, mas queria. Queria porque na escola havia uma única menina com cabelo bem curtinho.

Na verdade, eu queria ser como ela, mas havia nisso, também, o desejo de ser diferente. Queria ser como ela porque ela era diferente de todas as outras. Assim fui crescendo, buscando e procurando o meu jeito, os meus gostos, os meus interesses. Algumas vezes igual a todo mundo, outras me sentindo, me descobrindo e me aceitando diferente.

Como quando, aos 13 ou 14 anos, decidi parar de comer carne. Hoje ser vegano está na moda, mas naquela época eu era olhada quase como um ET. Não ficava falando sobre isso, mas quando o assunto surgia, não me incomodava com o estranhamento. Hoje, com a moda, o que me incomoda são veganos e vegetarianos que parecem querer destacar o tempo todo: “olha como eu sou diferente!”. Como se o importante não fosse apenas ser como se quer ser, sendo igual ou diferente.

O ser diferente que aprendi a valorizar, não tem a ver com ser ou me sentir especial. Embora sejamos todos, a nossos modos, especiais. Tem e sempre teve mais a ver com ser eu mesma. Se eu preciso ser diferente para, ao olhar nos espelhos, físicos ou metafóricos, me reconhecer, serei. Assim me aceitarei e me gostarei.

Assim reconhecerei (e reconheço), aceitarei (e aceito) e gostarei (e gosto) dos que são diferentes de mim, dos que são diferentes do outros, dos que mesmo parecendo iguais não são todo mundo. As mães tem razão: nem eu nem vocês somos todo mundo. Somos nós do jeito que somos e queremos ser e é isso que faz do mundo um lugar especial. Viva as diferenças!

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